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A Alemanha e os negacionistas

A Alemanha e os negacionistas

Pessoas sem máscaras bradando lemas nacionalistas e protestando contra medidas restritivas e de distanciamento social adotadas em razão da pandemia: trata-se, convenhamos, de uma cena corriqueira nos tempos atuais. Ainda que indignados com as eventuais teorias negacionistas à base de vários destes protestos, nós os temos acompanhado com uma naturalidade quase conformista. Na Alemanha, ao que parece, não é bem assim.

Berço do nazismo, a Alemanha é um país cauteloso ao considerar a liberdade de expressão – ou o abuso dessa liberdade. Exemplo dessa cautela é o tratamento que as autoridades têm dispensado ao ‘Querdenken’ (“pensamento lateral”), grupo que organiza manifestações de repúdio às medidas de combate à pandemia. Segundo reportagem da DW, “o Ministério do Interior alemão confirmou nesta quarta-feira (28/04) que setores de um movimento alemão de negacionistas do coronavírus serão mantidos nacionalmente sob vigilância pelo Departamento de Proteção à Constituição da Alemanha (BfV), o serviço de inteligência interno do país. O BfV disse que partes do grupo chamado Querdenken constituem ameaça por questionarem a legitimidade do Estado alemão.”

Este tipo de discurso, que nega legitimidade à República Democrática do pós-guerra, é típico dos setores extremistas da sociedade alemã. Ele é indício das ligações do Querdenken com os grupos de extrema direita Reichsbürger e Selbstverwalter, cujos membros se consideram não sujeitos às leis do Estado alemão.

Parafraseando o conhecido adágio, os extremismos se tocam. Há claras semelhanças entre os grupos citados e o QAnon, por exemplo, grupo radical americano. Supremacismo, revisionismo histórico, negacionismo – todos esses são eixos fundamentais da orientação desses grupos. O antissemitismo, especialmente, é uma consequência dessa orientação. Outra reportagem da DW, desta semana, diz que “manifestantes [alemães] que se opõem às medidas para conter a pandemia têm usando símbolo de perseguição da era nazista, substituindo a palavra ‘judeu’ por ‘não vacinado’ e fazendo falsa analogia com o Holocausto”. Sintomático.

A liberdade de manifestação em protestos contra as medidas de combate à pandemia foi garantida pelo Tribunal Constitucional alemão. Mas o abuso dessa liberdade tem sido coibido com rigor. Discursos que defendem o fim do regime democrático e a adoção de práticas refutadas pela ciência têm sido considerados exemplos desse abuso. A difusão de notícias e teorias falsas, as tais “fake news”, também. Os movimentos negacionistas têm recebido especial atenção das autoridades. Numa manifestação em Stuttgart, no fim de abril, pelo menos 700 pessoas foram detidas por não observarem as normas de combate à Covid19. “É enlouquecedor e constrangedor que, durante tempos como este, em que deveríamos estar exercendo preocupação mútua e cuidado uns com os outros, centenas de policiais sejam necessários para manter os padrões básicos de distanciamento social e comportamento”, afirmou Thomas Strobl, secretário do Interior do estado de Baden-Württemberg, com inteira razão.

Também neste tema, o tratamento dispensado aos negacionistas, a Alemanha ocupa uma posição de vanguarda. O Brasil está ainda num estágio distante, se considerarmos a forma como combate essa mazela. Mas temos avançado nisso: o fato de que haja tanta gente apagando suas postagens parece ser um claro indício.

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