Opinião

Barbárie

Barbárie
Arte sobre fotografia de Germano Woehl

Jaraguá do Sul foi escolhida pela revista IstoÉ a melhor cidade de médio porte do Brasil. Não sei o porquê dessa escolha, mas tendo a concordar. A cidade parece realmente fantástica. Num país de indicadores sociais obscenos, ela é uma exceção notável.

A vizinha Guaramirim é uma pequena cidade de virtudes similares. Com Schroeder, Corupá e Massaranduba, forma a “grande Jaraguá”. A ‘exceção notável’ de que se falava é na verdade toda essa região que abrange a bacia do Itapocu.

Em Guaramirim está o ‘Santuário Rã-bugio’, uma reserva particular de patrimônio natural sob os cuidados do casal Germano e Elza Woehl. Doutor em física, Germano tem produção científica reconhecida internacionalmente. O OCP, famoso diário da região, já publicou a seu respeito: “Físico de Jaraguá faz descoberta que vai mudar o mundo da ciência”. Soa exagerado, mas é justo. Elza luta pela causa ambiental há mais de duas décadas. Com Germano, criou o Instituto Rã-bugio, de atuação amplamente reconhecida. Eles trabalham não só na conservação de espécies, mas também na conscientização da mais devastadora delas. O mesmo OCP destacou que “diversas gerações passaram pela ‘casa’ dos Woehl para adquirir conhecimentos e levar um pouco da natureza consigo”.

Na última terça-feira o casal sofreu um atentado. Bandidos desferiram tiros contra sua casa. Alvejaram também a placa do Governo Federal que indica a existência, no local, da unidade de conservação. Elza, uma senhora sexagenária, estava sozinha no momento dos tiros. Podemos intuir seu pavor durante o atentado. É um crime covarde que nos enche de nojo.

Mas é também uma mensagem acintosamente perversa. Ao atingir bens e símbolos nacionais, o crime mostra a intenção de intimidar e a indiferença ao Estado brasileiro. Escancara um banditismo que existe também aí, na “grande Jaraguá”. Sugere que a mais bem avaliada região do país é uma terra sem lei.

Barbárie: eis a palavra exata. Se até nessa região há barbárie, então resta concluir que o Brasil está em colapso. Ou que essa pequena parte do território nacional não é uma “notável exceção”, mas só um lugar onde a gente vive a ilusão de que se salva num país que afunda.

Vítor Véblen

Vítor Véblen é iniciado em literatura política. Viveu em Chicago, onde estudou economia. Mora atualmente em Joinville.

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