Arte

Carta à Luz do Sol

Carta à Luz do Sol

Curitiba, 11/11/2021.

Olá,

Hoje choveu fino aqui onde moro, estava frio e por um breve instante a luz do sol apareceu atrás da cortina. Não deu tempo de chamá-la para entrar, já tinha ido embora.

Hoje foi assim, eu estava feliz, meu pai fez 70 anos e hoje fiquei triste pois meu tio Téio, seu irmão, se foi. 

Hoje a vida se mostrou em sua totalidade num único dia. Comemorei, mesmo de longe, a vida e, mesmo de longe, senti da dor da perda. 

Meu pai e meu tio, dois irmãos que tiveram histórias de luta, de acertos e erros. Dois homens, humanos, o mais velho e o mais novo, dois em tempos opostos.

Meu pai mandou uma foto dele com os vizinhos comemorando. Horas depois veio a notícia sobre meu tio que se foi.

Novela familiar de todos nós. Cada um tem a sua. Essa é a minha.

Naquela hora eu estava na última aula de um curso de literatura sobre a forma de escrita em diários. Os diários, para dentro, para fora, para publicar, para não publicar, para publicar só depois da morte… Não consegui acompanhar. Terminou a aula e agora estou aqui escrevendo, pois não sei se amanhã conseguirei.

Mas, neste capítulo demasiado humano eu só posso dizer da dor, tanto quanto da força dos laços que fazemos na vida, quer sejam nos destinos incontroláveis, quer sejam nas escolhas que assumimos. 

Paradoxalmente, sem laço não há dor de perder. São tantas histórias de perdas nestes tempos que não podemos esquecer que são, antes disso, histórias de encontros, histórias de amor, este afeto de investimento de corpos, palavras, desejos. Histórias disso que nos fazem gente.

Por isso, eu sigo escolhendo sentir, já que a dor também é prova de vida.

Você já percebeu que nunca consegue apagar uma pegada na areia? Não adianta passar a mão, preencher o vazio, tirar os contornos que, mesmo assim, uma marca continua ali. Mas se você deixar e voltar no outro dia, não encontrará mais a pegada e sim outra praia, é sempre outra praia. Que o tempo, o vento, o mar, a vida por ali, é tudo tão mais delicado e gentil no gesto de se reinventar, se reconstruir.

Precisamos desta delicadeza.

Quero deixar aqui meus sentimentos a todos e que neste dia tão simbólico ao meu pai, seja de paz e boas lembranças nesta coincidência que parece acontecer só aos que tem um forte laço fraternal. Meu tio querido, alegre e gentil se fez presente nos 70 anos do meu pai. 

Por um breve instante, a luz do sol se fez por detrás das cortinas. Foi o suficiente.

Um abraço,

Wagner.

Wagner Rengel

Wagner Rengel quis ser silêncio depois pássaro depois peixe depois vento depois grilo quis ser gente depois nada. Mora em Curitiba.

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