Cecília Cortez: O grupo.

Cecília Cortez: O grupo.
Arte: Joana Luna

Clarice mandou a notícia no domingo. Há uma semana. Fazia tempo que não nos escrevia. Faz muito que parece não querer participar do grupo. Deu a notícia e mais nada. Nós ficamos loucas. Mandamos trocentas mensagens. Ela, mais nenhuma.

Clarice sempre foi assim. Sempre teve em si algo de distante. Mesmo quando me soprava palavras meigas e seus olhos azuis me sorriam e seus cabelos quase me tocavam a face. Assim, entre distante e carinhosa, sempre foi a mais bela de nós. Desde o colégio, quando usávamos sainhas e meias três quartos. E tínhamos tranças. As dela eram tão louras que seu brilho ainda me chicoteia a memória.

Clarice é única de nós que não se divorciou. Conheceu o Daniel aos dezesseis. Desde então eles sempre formaram um belo casal. Têm dois belos filhos e quatro belos netos. Uma família linda. Daniel é um sujeito bacana. Bem diferente do meu ex-marido. E ainda mais do da Carla, aquele cretino.

Carla é médica como seu ex-marido e seus dois filhos. Família insuportavelmente médica. Cheios de razão sobre tudo o que pode dizer a medicina. Inclusive sobre o quanto a medicina pode dizer. Cheios de razão sobre tudo.

Foi a Carlinha quem teve a ideia do grupo. Há uns três anos. Não foi má ideia. Era a chance de nossa reaproximação. Fomos inseparáveis até casarmos. Então nos separamos: não dos maridos, bem claro, o que só ocorreu décadas depois; nós nos separamos umas das outras. Passamos anos sem o menor contato. Lembro da tarde em que encontrei Clarice na rua, nós duas já bem além dos trinta anos. Demos um abraço tão longo que houve tempo pra rir e se olhar e dizer mil coisas. Deu tempo até pra chorar.

Mas o abraço não reatou nossa amizade. Quem reatou foi a Carlinha. Ou melhor: o grupo. De repente estávamos as três no whatsapp. Contando mil histórias e trocando mil fotos e fazendo mil confissões. Unânimes, concluímos que nosso distanciamento havia sido breve, e que unidas teríamos um longo futuro, e que nos amávamos.

Aos poucos, porém, o grupo degringolou. Não sei exatamente por quê. Acho que foi a política. Carlinha sempre cheia de razão. Mito pra cá, mito pra lá. Vi logo que Clarice se aborrecia. Ela evitou discutir. Mas nem sempre resistiu. O caldo entornou. As conversas azedaram. Lembro que de repente o clima ficou insuportável. Já era tempo de pandemia. Carlinha, médica numa família de médicos, metralhava argumentos. Cheia de razão. Mais do que nunca.

Clarice se afastou. Não escreveu mais. Nem mesmo lia as mensagens. As trocentas que Carlinha mandava todos os dias. Sempre com novas verdades sobre o vírus chinês. Sempre brutais. Sempre sem razão nenhuma. Pois já ninguém discutia. As mensagens de Carlinha caíam no vazio. Depois de um tempo ela mesma cansou. E o grupo fez silêncio.

Até domingo passado. Até a inesperada mensagem de Clarice. Até a notícia: ela e o marido estavam com covid. Eu e Carlinha ficamos estarrecidas. Fizemos mil perguntas. Dissemos mil votos de saúde e mil juras de amor. Clarice não deu resposta. Na quinta descobrimos que ela havia se internado. Ontem foi o velório.

Não havia dez pessoas na capela mortuária. Não havia sequer o Daniel, que seguia na UTI. Havia muitas flores e o caixão fechado. Diante dele eu tive uma compulsão sinistra. Quis abraçá-lo como abracei Clarice, doce e encantadora, naquela tarde. Era impossível. Era insuportável aquela cena.

Cheguei em casa e havia trocentas mensagens no grupo. Carlinha delirava. Tinha escrito coisas tristes e brutais. Coisas que inspiravam pena e nojo. Então caiu em desespero. Mandou áudios convulsos.

“Me ajuda, amiga, me ajuda”, ela implorou.

“Toma cloroquina”, eu respondi.

E saí do grupo. 

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