Opinião

Desamarrem seus filhos

Desamarrem seus filhos

“♫ Acorda criançada tá na hora da gente brincar/ Brincar de pique-esconde, pique-cola e de pique-tá, tá, tá, tá/ Nessa brincadeira também tem pique-bandeira, amarelinha pra quem gosta de pular” (Brincadeira de criança, Molejo).

Qual o tempo certo para deixar seus filhos em frente às telas (televisão, computador, celular, videogame)? Antes dessa pergunta, outra: existe tempo certo para isso?

Algum leitor mais atento pode provocar: ah, Raphael, mas televisão e videogames existem há décadas e não se tinha essa neura de hoje em dia sobre filhos na frente das telas, essa quase histeria coletiva.

Respondo que, sim, havia preocupação de parcela considerável dos pais, mas hoje temos dois problemas bem maiores que não se tinha há pouco tempo: portabilidade e variedade.

Antigamente não dava para levar a televisão debaixo do braço para qualquer lugar e continuar ininterruptamente assistindo praticamente tudo. Nada era portátil como são os smartphones, tablets e notebooks de hoje. E o outro problema é justamente a variedade. A quantidade de informação, programas, filmes, desenhos e tudo o mais que se quiser ver na internet é quase infinita. Ou seja, se quiser, dá para ficar assistindo 24 horas por dia até o fim da vida sem esgotar a oferta.

Tela zero?

Bom, o assunto não é novo. Quem me acompanha, sabe que há anos insisto nele. E vamos ver como me comporto, na prática, agora com um filho de pouco mais de um ano. O fato é que o tema é relevante!

A American Academy of Pediatrics (AAP), dos EUA, sugere o seguinte: até 24 meses, nada de tela, salvo para conversa em vídeo com algum adulto (pai em viagem, por exemplo); dos 2 aos 5 anos, menos de uma hora por dia, de programas qualificados e acompanhados pelos pais; dos 5 aos 7 anos, no máximo duas horas por dia, também de bons programas, e ainda monitorados pelos pais. Já para pré-adolescentes e adolescentes, o ideal é estabelecer diretrizes para toda a família em relação ao uso de TV e internet, para uma convivência harmônica. No site da AAP tem até um formulário para criar um plano familiar de hábitos digitais saudáveis.

A American Psychological Association (APA), também dos EUA, concorda com estas regras, mas com reservas importantes: segundo eles, não há estudos em tempo suficiente para conclusões absolutas. A Sociedade Brasileira de Pediatria, por sua vez, em fevereiro desse ano, divulgou o Manual #MenosTelas #MaisSaúde e suas recomendações são muito parecidas com as das duas entidades americanas. E, para quem não sabe, já há até uma CID (Classificação Internacional de Doenças) sobre dependência digital, mais especificamente de dependência de jogos eletrônicos.

E há fórmula mágica?

Infelizmente, não. Porém, alguns cuidados podem ser tomados com os pequenos. Bebês não precisam de telas. Pais têm que deixar de ser acomodados (e não me venham com mimimi) e dar atenção a seus filhos, mesmo cansados depois do trabalho. Brincadeiras sem televisão, computador e celular são possíveis. Foi assim até bem pouco tempo.

E todas estas entidades, entre outras, fazem recomendações relativamente simples, além dessas que já apontei aqui, que podem contribuir bastante: desligar todas as telas (inclusive televisão) durante as refeições e uma a duas horas antes de dormir; oferecer alternativas às crianças e adolescentes, como atividades ao ar livre, esportivas e na natureza, especialmente nos finas de semana; evitar programas com conteúdo de teor violento, abusivo ou sexual; ter a participação efetiva e constante dos pais nas diversas atividades do dia a dia; pais dando exemplo. Em suma: desamarrem seus filhos das telas e desamarrem-se também!

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