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Escorpião e a luz do outro mundo

Escorpião e a luz do outro mundo
Foto por @edenfall_ no Instagram

Dia de Finados, Día de los muertos, Halloween – todos celebram a lembrança, a passagem, o contato com o “outro mundo”. A morte divide a existência em duas: do lado de cá, a existência viva, sensível, a nossa; do lado de lá, a existência espectral, intuída, a deles. Eles existem, sem dúvida: como espíritos ou como memórias. Eles povoam um vasto mundo entrevisto nas bordas escuras da vida. Um mundo que mantemos afastado, mas que de repente nos toca com o impacto dum êxtase: espanto, medo, fé. Halloween, Día de los muertos, Dia de Finados: basicamente, o dia do outro mundo.

Por que este dia? Por que estas datas? Por que celebrar os mortos entre o último dia de outubro e o os primeiros de novembro?  

A explicação decerto está no Samhaim, o festival celta que celebrava o fim do verão. Dizem que o calendário celta dividia-se em apenas duas estações. O início da estação escura e fria era consagrado aos mortos. Um papa medieval teve a ideia de tentar cristianizar essa consagração. Determinou que o Dia de Todos os Santos fosse celebrado no dia do Samhaim, em primeiro de novembro. Esta celebração cristã desde sempre foi uma tentativa da igreja de lidar com o paganismo: ela evoca, originalmente, o dia em que o Panteão romano foi dedicado ao culto dos santos cristãos, em substituição às divindades pagãs. O Dia de Finados é um desdobramento desse processo de contato da cristianismo com o paganismo. Como o culto celta dos mortos não se esgotasse na celebração cristã dos Santos, um outro dia – o próximo, dia 2 de novembro – foi dedicado aos que habitam o outro mundo.

Tudo portanto remonta à data da Samhaim. Mas a pergunta permanece: por que essa data? Por que os celtas celebravam o fim do verão no dia em que, segundo cenário calendário romano, é primeiro de novembro?

Não encontrei a resposta. Duas explicações me ocorrem. A primeira é óbvia: a data é o meio-termo entre o equinócio e o solstício; pra quem divide o ano em duas estações, faz sentido escolher esse marco. A segunda explicação é astrológica: em primeiro de novembro a estrela Antares nasce momentos antes do Sol. Assim como os egípcios marcavam o início do ano lunar quando um fenômeno idêntico acontecia com a estrela Sírius, os celtas viam em Antares a aurora da estação fria e escura.

A estrela de Escorpião, enfim, trazia aos olhos celtas a luz do outro mundo, que anunciava a escuridão do inverno. O tempo de Escorpião tem esta atmosfera paradoxal. Enquanto evoca os abismos obscuros do “outro mundo”, sinaliza a luz que permite lembrar e contatar os que ali existem – em espíritos ou em memórias.

Cármen Calon

Cármen Calon é astróloga com amor pela, e às vezes pânico diante da, astronomia.

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