Opinião

Oscar 2022 – melhor filme

Oscar 2022 – melhor filme
Cena de "No Ritmo do Coração"

Historicamente, a categoria mais esperada do Oscar é a de Melhor Filme. Porque se unifica todos os quesitos num só. Como se a força da coletividade de uma produção de um filme ganhasse vida e o reconhecimento dos seus inúmeros operários chegasse ao patamar mais alto do planeta. Pois tudo precisa ser bem feito e conectado.


Maratonei, vi todas as indicações e, assim, expresso minhas considerações nestas mal traçadas linhas. São opiniões particulares que refletem meu sentimento no momento, que podem (e devem) ser questionadas e não tidas como verdade absoluta. Inclusive, as notas dadas no final são para me guiar dentro da minha análise cinematográfica. Não me levem a sério (ou não) e assistam a todos os filmes. São eles, em ordem alfabética do título em português brasileiro:


_AMOR, SUBLIME AMOR_

É inevitável não fazer comparações com o clássico original. Porém, mais inevitável ainda é querer tapar os olhos para este remake. Que sensibilidade de Spielberg! Se, nos anos 60, a disputa entre os Jets e os Sharks se dava apenas por etnias imigrantes, esta nova obra trouxe todas as lutas que o mundo do século XXI precisa atentar – racismo, transfobia, desigualdade econômica, abismo social. Isso ao som da inesquecível e inalterada trilha sonora de Leonard Bernstein e tendo como pano de fundo o amor entre diferentes no estilo Romeu e Julieta. Praticamente uma aula de como fazer musicais no cinema (referências, domínio narrativo, cores, coreografias), até chegar ao ato final que, inexplicavelmente, sai do eixo. Sem contar que a entrada e a saída do casal apaixonado acontecem abruptamente. Agora, ver a original Rita Moreno nesta recontada história é uma emoção à parte. Nota 7,5.


_ATAQUE DOS CÃES_

Há algum tempo o outrora faroeste másculo e reacionário passou a ser usado, no cinema contemporâneo, para ressignificações. Aqui não é diferente. O gênero se veste de drama para discutir solidão, vícios, poder, inveja e, essencialmente, desejos reprimidos. É um exemplo clássico e belo de cinema contemplativo, onde a diretora neozelandesa, em seu ritmo lento e hipnótico, constrói e desconstrói seus personagens através do silêncio, imagens e reflexões. Ademais, é uma elegia à defesa das relações familiares, principalmente, entre mãe e filho, retratado magistralmente no ato final com subversivas pitadas bíblicas, no estilo “agora podemos ser felizes”. Inteligente e poderoso como um ataque de cão. Nota 8,5.


_BELFAST_

Uma viagem pela infância de qualquer pessoa. Independente da idade ou nacionalidade, o espectador automaticamente se recordará de lembranças da parede da memória. E sentirá saudade daquele tempo simples e doce. Neste caso, a ambientação se dá em Belfast, capital da Irlanda do Norte, nos conturbados anos finais da década de 60, quando católicos e protestantes começavam uma guerra civil que culminaria no domingo sangrento de 1972. E, mesmo nesse contexto, as preocupações de criança de Buddy (Jude Hill) eram verdadeiras e singelas, contrastando com as más perspectivas da vida real de sua cidade. Em suma, é um filme sincero, afetuoso e envolvente, embora derivativo por oferecer pouca visão daquele tempo turbulento. Corações ternos rodeados de arame farpado. Nota 7,5.


_DRIVE MY CAR_

Mistura de literatura, teatro e cinema numa realidade multilíngue onde o luto e o autoconhecimento são os donos do espetáculo. Além da reconstrução pessoal (não à toa Hiroshima é escolhida como cidade da narrativa), sobre relações e afetos. E são situações complexas e complicadas retratadas, como solidão, culpa, fuga e autoflagelo, no melhor estilo do cinema oriental, com calma e precisão de detalhes (vide a leitura meticulosa do roteiro repetidas vezes), o que justifica suas três horas de duração, pois o tempo também é personagem já que se pensa o passado como estrada pra construir o futuro. Outro personagem marcante é o carro Saab 900, local onde verdades surgem como simples piscar de olhos. E, de uma maneira singela e perfurante, o realismo de Anton Tchekhov encerra esta bela obra: “você nunca conheceu a felicidade, mas espere”. Não recomendado àqueles que veem filmes com pressa, pois o cochilo virá invariavelmente. Nota 8,0.


_DUNA_

Um primor técnico magnânimo, capaz de ativar emoções diversas por meio de uma experiência sensorial inigualável. O tom acinzentado da poeira do deserto embalsando o branco doloroso do céu só reforça o ambiente sombrio e urgente que a trama quer prever. Porém, falta futuro. Por mais que os subtemas estejam atuais (colonialismo, ativismo ecológico, exploração econômica), o deslumbramento ficcional da narrativa perde força e cansa rápido demais, tornando-se indecisa. As soluções do protagonista são fáceis e apressadas, falta humanidade nos personagens, muita apresentação e pouco aprofundamento, enfim, parece que mais está por vir do que o já apresentado. Mas é grandioso pelo tamanho de tudo. E, pra quem curte, é um apuro imagético que salva a produção. Nota 7,0.


_KING RICHARDS: CRIANDO CAMPEÃS_

Parece clichê falar de filmes biográficos que usam a mesma proposta formulaica para o gênero. Neste caso, o mote esportivo dobra o conceito para o clichê do clichê: luta de classe, moral familiar, superação de obstáculos e redenção. De ritmo propositadamente lento para beneficiar a estupenda atuação de Will Smith, o longa cansa e dá a impressão de repetição (talvez porque o jogo de tênis seja assim). Não há arco dramático na relação pai/filhas e tudo se resolve na base da fábula contada. Ainda assim, é um filme da nossa era, por apresentar as melhores tenistas de todos os tempos se consagrando pelos seus talentos num esporte predominantemente branco e abastado. E, assim como King Richard, Venus e Serena possuem o triunfo da autodeterminação. Pois, de artista e louco, cada um tem um pouco. Nota 7,0.


_LICORICE PIZZA_

Aparentemente digressivo e bagunçado, este filme ratifica o status quo “diferentão” do diretor, pois, embora pareça, a trama não é aleatória e as histórias não são soltas. Já que o famigerado acaso é um personagem importante dentre os vários (e dispensáveis) personagens do longa. Tudo isso ligado ao fator romance. E é incrível como a apatia e a resignação dos personagens principais são retratadas – com a mais sincera das aceitações porque eles não sabem (e não conseguem) se expressar/comunicar. É uma vida comum e sem rumo baseada na teoria behaviorista de Skinner: observo, logo, ajo. Porém, por mais que essa alienação possa ser incompreensível para os espectadores, é carismática ao extremo. Em suma, uma obra sobre amadurecimento, tal qual uma corrida para os sonhos. Ou para um abraço. Nota 8,0.


_NÃO OLHE PARA CIMA_

Um filme com muito hype porque é fruto da ignorância de nosso presente. E isso incomoda, principalmente aos opositores da ciência. O que era pra ser um aviso sobre a questão ambiental virou uma avacalhada sátira aos sociopatas contemporâneos em tom de reality show – o que justifica a longa duração da fita. Infelizmente o negacionismo não morrerá tão cedo, logo, não há “atraso” nenhum na história contada sobre este mundo apedeuta e tudólogo que somos obrigados a conviver. Apesar da fraca construção narrativa, é um filme bastante reflexivo sobre o homem e o seu tempo, vide os terraplanistas e os antivacinas. Uma sessão que vale a pena e a pipoca. Nota 7,0.


_NO RITMO DO CORAÇÃO_

Os interessantes conflitos que acontecem/acontecerão em famílias de pais surdos e filhos ouvintes são postos em cena nesta bela, tocante, sutil e hilária obra. Não tratando a surdez como pena nem com teor de caridade, estabelece-se a possibilidade de ouvirmos além da barreira do som. E, sob tal óptica, foge da pieguice e consegue comover e prender a atenção do espectador, principalmente no que tange à equivocada dependência pelos surdos dos seus entes ouvintes. Porém, o ato final cambaleia nos momentos cafonas e de água com açúcar que o filme sempre evitou, trazendo aquela previsibilidade dos filmes do gênero, mas nada que desabone o produto final. E a escolha das canções potencializou a emoção, que visa o coração e atinge o alvo. Nota 8,6.


_O BECO DO PESADELO_

Uma verdadeira viagem sobre a psiquê humana e como a nossa monstruosidade nasce da ambição efervescente de cada dia. Sofrimento, castigo, morbidez e morte causam traumas, e estes se transformam em vazios que, automaticamente, precisam ser preenchidos. Mas com quais sentimentos? Quanto mais estímulos maléficos, mais cruel será a fera humana (cuja alimentação é administrada pelo próprio homem). Uma obra interessantíssima só que com graves problemas de desequilíbrio na trama e no roteiro. Dois cenários distintos, duas histórias que pouco se conectam, dois atos com personagens secundários diferentes, enfim, um neo noir que profana e titubeia na mesma intensidade. Mas sem deixar de ser um horror cru e moderno dos lixos viventes em nós, os reais criadores de tais monstros. Nota 7,0.


Assim, finalizando o especial Oscar 2022, NO RITMO DO CORAÇÃO, de Sian Heder, é o meu preferido desta edição, mas ficarei satisfeito com qualquer vencedor (e penso que será uma decisão apertada e difícil para os jurados). Esperemos o resultado e que a Academia esteja iluminada em sua escolha. Que rolem os dados!

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