Serjão Santana: “O Palmeiras e a história”.

Admitamos: o Palmeiras é o grande campeão. Os ítalos conquistaram dois canecos pesados. Cumpriram uma temporada vitoriosa, em que foram os maiores do país. Numa palavra: fizeram história.

Ah, essa palavra! Como ela me atormenta! Como o futebol insiste em nublar seu sentido! Já não sei o que é a história. Já não compreendo o que faz dum fato – uma vitória, um título, uma temporada – algo histórico. O que antes me era tão claro, agora é obscuro como as nuvens do sul: então isso, esse futebol do Brasil de hoje, é a história a fazer-se?

Um programa de TV fez uma enquete: quem, deste Palmeiras atual, estaria num hipotético time selecionado entre todos os que já vestiram a glauca e gloriosa camiseta? Os próprios comentaristas, respeitosos, selecionaram só um: Gustavo Gomes, o beque. Então lembrei do Juvenal. Grande zagueiro, clássico e viril, titular da brilhante seleção de 1950. Ele compunha o esquadrão palestrino campeão de 1951, que tinha ainda Jair Rosa Pinto – também ele titular na Copa de 1950. Lembrei do time de 59, campeão após três partidas lendárias ante o Santos de Pelé e Pagão, que tinha Djalma Santos e Julinho Botelho. Lembrei das Academias! A primeira, com Servílio e Tupãzinho. A segunda, com Leivinha e Luís Pereira. Ambas com Ademir e Dudu. Lembrei do Ademir: ah, o Divino! Um dos maiores da história! Não da história do Palmeiras: da história do futebol! E ainda, antes de retornar a mim, sobrevoei os Palmeiras dos anos 90 e lembrei de Cafu, Roberto Carlos, Sampaio, Mazinho, Evair, Edmundo, Rivaldo, Djalminha, Alex

Volto, zonzo, a 2021. O Palmeiras, além do beque paraguaio, tem Weverton; são os dois bons jogadores do time. No mais, basta dizer que entre os titulares tem Marcos Rocha, Luan, Felipe Melo, Roni. Meu Deus, o Roni acabou sendo um dos grandes destaques desse time! Insisto: o Roni!

E este time fez história. O valor histórico dos fatos é medido com a régua dos títulos. Ante essa régua, o time atual talvez seja maior que a Academia dos anos 70. Gustavo talvez seja maior que Luís Pereira. Roni talvez seja maior que Ademir!

Não, não, chega! Não falemos mais de história! Minha memória, a me atormentar, que se cale! O passado não cabe no horizonte que hoje compartilhamos. Somos todos como Procusto: ou cortamos as pernas do passado, pra que ele caiba na cama em que o contemplamos; ou passado arrebenta essa cama – a metáfora de nosso horizonte, a medida de nosso ser em nosso tempo.

Combinemos assim: o Palmeiras é o grande campeão do ano. E no futuro, ao contemplarmos o passado, veremos o valor desse feito. Talvez o futuro nos traga réguas melhores. Talvez Ademir seja, nesse outro horizonte mais claro, ainda maior.

Serjão Santana

Serjão Santana jogou futebol amador em Itajaí. Fã dos irmãos Rodrigues, abraçou a crônica esportiva. É marcilista e botafoguense.

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