Arte

Werner Schön: Thor

O vento veio do sul em forma de frente fria úmida e monolítica e descansou no vale espelhando seus ares cinzas nas águas sujas do Jaraguá. Ali permaneceu por dias gozando a liberdade de ser vento e a felicidade de ser massa a um tempo vaga e una, ele, filho da pele ondulada do oceano e neto da neve sombria e antártica. Por dias ali estendeu sobranceiro seus sopros escuros chovendo garoas tardias e tingindo geadas matinais.

Mas.

No alto notou nuvens brancas e soberbas cuja altivez talvez denotasse desprezo e que em todo o caso, de tão secas, pareciam odiá-lo ou ao menos discriminá-lo por não ter aquelas formas figurativas e fractais. E onde junto às fontes os rios ainda corriam em tantos finíssimos cursos ouviu descerem vapores saltitantes que se amontoavam no leito congestionado do Itapocu e seguiam na procissão estrepitosa até se dissiparem ante a brisa salgada do leste. E da respiração molhada do mato soltava-se uma névoa branca que tudo escondia e nada, nem cor nem forma nem traço, deixava ver.

Pois.

No auge de uma tarde lamacenta o vento sul sentiu-se asfixiado e viu o quanto sofria por estar recluso neste vale ao invés de voar pelo mundo em seu diálogo debussiano com o mar, até que de repente uma rajada de nordeste o carregou, definitiva e irresistivelmente, pro oeste pro alto pro sol, ao tempo em que ergueu no céu do dia que se abriu a pipa de uma criança em que se lia, em letras luzentes, Thor.

Werner Schön

Werner Schön tenta fazer literatura. Em Jaraguá do Sul.

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