Opinião

Vítor Véblen: Live ‘n’ evil

Vítor Véblen: Live ‘n’ evil

Paola Hakenhaar esteve irretocável. Karlan Muniz, claro e eloquente. Darwinn Harnack, incisivo – brilhantemente incisivo. Victor Emendörfer, um mediador ‘ad hoc’, teve o mérito da discrição – e soube assim não atrapalhar. Todos os quatro são também colunistas da Abertura. Todos estiveram na ‘live’ que debateu, na última segunda, nada menos que isso: a política brasileira.

Paola, a elegância em pessoa, assinalou um contraste dramático com a aparência distraída dos demais. Karlan vestia uma camiseta estampando os óculos que deveras tem. Victor vestia uma preta, muda, soturna. Darwinn, salvo engano, usava pijama. Tinham todos o figurino adequado à peça. As camisetas de Karlan e Victor simbolizavam as humildes pretensões do debate. O pijama de Darwinn lembrava a todos que estamos sonolentos. A elegância de Paola, instaurando um contraste tão vívido, despertava a audiência para a seriedade do tema: assim desperta, a audiência talvez compreendeu o pesadelo da realidade – com o perdão do paradoxo.

Gostei da ‘live’. Gostei do tema. Gostei da ousadia de enfrentá-lo. A política brasileira vive um momento decisivo. O debate soube estabelecer esta premissa – e, a partir dela, alçar voos contemplativos e rasantes agudos. Cada debatedor pôde apontar pequenas portas que abrem saídas deste cenário apavorante. Portas que guardam, atrás de si, a esperança.

Em certo ponto, entretanto, a esperança foi confrontada com uma opinião minha. Sim, fui citado na ‘live’ – e por isto, aliás, sou grato. Minha opinião, expressa em meus últimos textos, não fala de esperança. Ao contrário. Fala do bolsonarismo sendo deglutido, digerido, assimilado pelas instituições políticas. Fala do regime mórbido que se alastra como uma praga a lançar raízes sutis na terra impura de nossa república. Fala deste momento histórico como um horizonte sombrio, prenúncio de um mal que se aproxima e quer se consumar.

O mal: eis o terrível antípoda da esperança. Nele, nos enormes espaços de suas nuvens negras, cabem todos os regimes que pululam ao redor do mundo como filiais desse grande negócio: o ódio. No mal, neste conceito e neste fato, estão as convicções supremacistas, os medos delirantes, a guerra sempre tão tentadora para os senhores da guerra. A história anda em percalços, avança e retrocede, mas parece de novo fadada a enfrentar o horror do instante terrível – quando ruirão os diques civilizatórios e o mal, até então represado, inundará tudo.

Ou talvez não. Talvez 2021 não seja como 1921. Talvez este século não repita o anterior. Talvez Weimar não caia desta vez. A luta sempre permanece. A resistência nunca desiste. A esperança é mais factível, mais concreta que o medo. Pois sempre há esperança em quem vive. E, afinal, vivemos. E viver é, em si, um modo de resistir ao mal. Live ‘n’ evil: diz o palíndromo que intitula este meu pobre artigo. É uma antítese. E por isto uma esperança.

Paola disse a verdade com todas as palavras – inclusive aquela proibida. Karlan disse verdades instigantes recolhidas por seu olhar atento. Darwinn disse a verdade íntima que relampeou num desabafo. A ‘live’ foi um ato de ousadia – a simples ousadia de dizer verdades – e então um aceno de esperança. Victor a encerrou com as formalidades de praxe; e, a julgar pelo sorriso, parecia convicto de que usará na próxima vez uma camiseta mais vistosa.  

Vítor Véblen

Vítor Véblen é iniciado em literatura política. Viveu em Chicago, onde estudou economia. Mora atualmente em Joinville.

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