DONA FRANÇA

Lembro do texto que Jeremias Flows escreveu no dia seguinte ao da final da última copa. Foi aqui mesmo, na Abertura, uns poucos posts atrás. O título era “Beleza pura” : foi o que ele achou do jogo entre Argentina e França. Diante daquele 3×3, ele disse ter ido prum lado e pro outro. Foi argentino primeiro, maldizendo a França e seu passado imperialista. Depois foi francês, reconhecendo a África no time de Mbappé e maldizendo o racismo do canto nojento que os argentinos entoaram. Então, diante de Messi e Mbappé, ele se rendeu simplesmente ao fubetol: “beleza pura”.
Jeremias já não está entre nós. Mas creio que hoje ele não hesitaria em escolher um lado. Tampouco eu hesito: com o Brasil eliminado, meu time é a França.
Há uma razão óbvia. Os caras jogam o melhor futebol da copa. Disparado. Vi eles derrotarem o Senegal em New Jersey. Jogo duríssimo, marcação pesada, um primeiro tempo de espantoso equilíbrio. Até que máquina engrenou: aí foi um baile. Ontem, contra o Marrocos, a máquina trabalhou em terceira marcha – e eles ganharam com folga. O time deles lembra muito aqueles nossos: os de 89, 97, 02 e 05, só pra citar os que vi. É a melhor seleção desde a nossa de 2006. Aliás, melhor que aquele Brasil com seus laterais envelhecidos e seus Ronaldos gordos. Olise e Dembelè, dois dos melhores jogadores do mundo, estão com fome. Barcola, Douè e Cherki prestam um auxílio luxuoso. Mbappé é o melhor jogador do mundo desde Cristiano e Messi.
É Mbappé, aliás, a segunda razão da minha escolha. Mbappé é foda. Declarou guerra à extrema direita. Irmanou-se com o Vini na luta contra os racistas. É resistência braba na vitrine dum mundo que degenera. E joga pra caralho. É o líder consumado de um timaço. Um time de pretos, filhos de imigrantes, que arrebentam na copa organizada por racistas xenófobos. Mbappé há de erguer a taça com Trump a seus pés. Há de ser um soco na cara dos fascistas.
Jeremias Flows, se estivesse entre nós, daria as mãos à Dona França. Sob o arquétipo rococó, ela traz a realidade multiétnica. Sob a herança imperialista, a ferida colonial. Sob o manto azul, a pele humana de toda cor.

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