
Na beira da ciclovia, a poucos passos do trilho, perto da antiga estação: há uma flor. Branca, pende sobre um caule fino como o vento. Lenta, balança as pétalas sob o peso do sol. Estrela, chora gotas de fogo em seu olho amarelo. Quero salvar a flor, mas não posso. Ela vai sumir em instantes. Algum descuidado vai pisar ali. Algum funcionário vai roçar o mato. O trem mesmo pode descarrilar sobre ela. Durante a noite, um vagabundo vai dormir na cama onde ela vive. Os meninos trêmulos vão jogar latinhas no seu rosto enluarado. Ou ela se afogará na enchente, quando os bueiros vomitarem toda a bosta da cidade.
Foda-se.
Há uma flor na beira da ciclovia. Minhas retinas fatigadas se esquecerão disso num piscar de olhos. Mas minhas narinas pálidas sempre se lembrarão de seu cheiro branco.
Comentários: