#aborto

#aborto

Desde logo quero deixar claro: sou fervorosamente contra o aborto. Aliás, considero essa convicção um dos grandes legados que nós, os conservadores, deixamos à humanidade. Compreendo o argumento dos esquerdistas: sim, as mulheres são livres pra decidirem sobre seu corpo e seu destino; e, de fato, há um grave problema de saúde pública. Mas eles não compreendem o risco existencial ligado à assimilação jurídica e moral do aborto. Não compreendem o pavor apocalíptico diante de uma possível eugenia radical, a cuja realização o aborto é o mais útil instrumento. Não compreendem que o destino humano não pode estar sujeito a uma racionalidade egoística que ousará definir, de mãos dadas com a ciência genética, a natureza de nossa descendência.

Mas este texto não é sobre aborto. Embora o título possa induzir a pensar isso, os leitores atentos notaram que a hashtag sugere outra abordagem. Este texto é sobre comunicação.

Comunicação é poder, já dizia Luhmann. Embora fosse um esquerdista, o velho Niklas estava certo. Desde o macho alfa da hipótese freudiana a humanidade está sujeita ao poder de líderes, reis, governantes. Esse poder é comunicativo: é a lei, a linguagem, o sistema que assimila o caos social e cria a ordem. Cada instância de poder tem sua mensagem: o macaco do Freud tinha a violência exemplar; o império romano tinha a língua e o direito; o presidente do Brasil, além de toda a burocracia governamental, tem o twitter e o whatsapp (além do telegram). Poder é comunicação.

Lula percebeu isso. O poder do Capitão é – em grande medida – resultado da capacidade de penetrar nas tantas “bolhas” desse enorme sistema comunicativo que chamamos basicamente de Brasil. Essa capacidade vem do fato de ser presidente, já que ninguém pode ignorar quem ocupa o cargo mais alto da república. Mas vem sobretudo de uma estratégia que tem tido enorme êxito há pelo menos quatro anos: a habilidade de suscitar reações – pro bem ou pro mal – em cada uma das tantas bolhas desse enorme sistema. Lula, eu repito, percebeu isso. E parece que aprendeu.

Na última semana ele falou sobre aborto. Engraçado: Lula passou oito anos na presidência sem tocar no tema. Ele é um típico cristão do interior de Pernambuco que se ajoelha diante da imagem do Padre Cícero. Alkmin, seu vice, é o político brasileiro mais comprometido com a causa “anti-aborto”: não posso pensar em nada mais fervoroso, quanto ao ponto, do que a Opus Dei. A chapa do PT definitivamente não é uma voz “progressista” nesse debate. E agora, assim do nada, Lula vem falar de #aborto?

Repararam na hashtag? Lula tocou num tema a que os mais empedernidos redutos bolsonaristas não podem ser indiferentes. Assim ele penetrou bolhas surdas – até então – à sua mensagem. É verdade que suscitou ódio, criou rejeição, atraiu ataques. Mas virou assunto. “Pautou” o lado adversário. Invadiu o território inimigo com seu exército virtual. Lula não quis falar de aborto, mas de #aborto.

Ele assimilou a estratégia do nosso presidente. Também o Capitão age assim. Chega a ser cômico: ele diz as coisas mais estapafúrdias e as bolhas esquerdistas perdem semanas falando disso. Depois o Capitão se desdiz: toda contradição lhe é perdoada – sabemos que esse é seu método na guerra. Ao fim do episódio, as bolhas esquerdistas trabalharam de graça pra ele: propagandearam seus seguidores, ressaltaram cada referência de seus argumentos, superexpuseram sua figura indômita.

Repito: Lula parece ter aprendido a estratégia. Também os enclaves bolsonaristas giraram, na última semana, em torno da sua figura. Ele precisa disso: se o atual presidente, pelo só fato de sê-lo, não pode ser ignorado, o ex-presidente pode ser – e é ignorado, de fato, por muitos setores da sociedade. Ao falar de #aborto, Lula pôs em si o epicentro do redemoinho que o tema suscita – e que atinge vastidões virtuais.

Comunicação é poder. Poder é comunicação. No interior dum sistema hipercomplexo que processa todas as mensagens e todas as reações, é decisivo compreender sua geografia abstrata, a mecânica de seus fluxos semióticos, os vetores de sua vasta e tensa arquitetura. A linguagem é aqui sobretudo gatilho, faísca, explosão: ela detona reações em cadeia. Uma palavra pode ter efeitos devastadores. Especialmente se armada com uma hashtag.

Capitão Ulisses

Capitão Ulisses é blumenauense. Apaixonado por inteligência militar, tem se dedicado ao estudo de sistemas políticos complexos.

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