ACABAQUI

[conversa entre zezeh cummings, João Santana e Pedro Pomerode, captada e transcrita por Enza Camargo]
Bar do Sérgio, Jaraguá, 21/07/2026:
JS: Torceu pra quem, zezeh?
ZC: Não vi o jogo.
JS: Sério?
ZC: Tenho cara de quem perde duas horas vendo jogo num domingo de sol?
JS: Bem mais que duas horas no caso. Só o show do Justin Bieber demorou um ano e meio.
ZC: Show do Justin Bieber?
PP: Não só.
ZC: Quem mais?
PP: A Madonna, a Shakira, os Ronaldos.
JS: E o Enzo Fernandes.
ZC: Quem são os Ronaldos? Dupla sertaneja?
[JS e PP se olham. Evitam responder.]
JS: Foi uma peça em três atos. Primeiro: três velhas estrelas num jipe evocam uma época remota em que habitávamos cavernas e víamos a seleção na globo. Segundo: um menino branco do norte apresenta uma canção reflexiva. Terceiro: uma mulher morena do sul faz uma dança sensual. Pura metafísica hegeliana: a história, o sujeito e o objeto.
PP: Teve também os coreanos.
JS: Sim, a graça fabricada dos orientais.
PP: Achei top.
[JS e ZC se olham. Evitam responder.]
ZC: Eu gosto da Shakira.
JS: Eu também. Mas cê entende? O arranjo dos estereótipos?
PP: Eu gosto do Justin Bieber.
JS: Cês tão de sacanagem, né?
[ZC e PP se olham. Evitam responder.]
ZC: No jogo também tinha estereótipos?
JS: Cê não viu nada a respeito? Messi e Yamal? A foto da banheira?
ZC: A foto eu vi.
JS: E não notou? O craque branco e reflexivo. O menino negro e nu. O batismo.
ZC: Um Justin Bieber, uma Shakira e um ritual de assimilação?
JS: Isso: o sujeito, o objeto e a história. O jogo não podia ser mais estereotipado.
PP: O que é estereótipo?
[JS dá um gole longo. Respira fundo. Esmurra a mesa.]
JS: Você é um estereótipo, Pedro! Um exemplar dessa germânia tropical que toma detergente e crê no Trump!
[PP se levanta. Vermelho feito um pimentão.]
PP: E tu? Um velho peixeiro que acredita no petê!
[ZC gargalha estrondosamente e serve o bitter caseiro do Sérgio.]
ZC: Toma aqui, Pedrinho, isso é bem melhor que detergente.
[JS gargalha. PP vira o copo.]
ZC: Tá, mas quem ganhou o jogou afinal?
PP: Espanha, infelizmente.
JS: Felizmente.
ZC: O menino negro?
PP: Sim.
ZC: Esse era o roteiro do show? O menino vence no final?
PP: Não sei.
JS: Não era um show.
ZC: E era o quê? Just football?
JS: O futebol e a vida não têm roteiro. Ou têm?
ZC: O futebol, talvez. Mas na vida ainda tenho fé.
PP: É uma questão de fé?
JS: Não sei. Não sei se a fé é só nossa última ilusão.
ZC: Para com isso. Papo derrotista. Em tudo cê só vê shows, ilusões, metafísicas.
PP: E estereótipos.
ZC: Isso. Fodam-se os estereótipos. A bola rolou sobre um gramado real. O menino venceu. O Messi chorou. Os caras em campo decidiram o jogo. Ninguém escreve o roteiro da história.
PP: Como sabe que o Messi chorou?
[Silêncio. Outro copo de bitter. E outro.]
ZC: Chega de copa. Bora tratar do que interessa.
JS: Do Flamengo?
PP: Da história?
ZC: Da vida.
PP: Na Abertura?
JS: Não creio. O show da Abertura sempre acaba em fracasso.
PP: Acho até que já acabou.
ZC: Acabaqui.
[Eles se levantam. Brindam. Viram os copos. Sérgio solta berros incompreensíveis detrás do balcão.]
ZC: Foi um prazer, galera.
JS: Só espero que um dia a gente volte.
PP: Só espero que não tenha blitz na Barra do Rio Cerro.

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