MI ALBICELESTE

Louca. Perdida. Desolada. Desde que entrei no quarto. Desde que pendurei mi albiceleste no armário. Desde que li, como se fosse pela primeira vez, o nome estampado sobre escápula esquelética do cabide: Messi.
Ontem não deu. Não dava. Mi Argentina se quedó lejos. Léguas de distância. Tomou um baile. Era pra ter sido goleada. Teve a sorte de enfrentar o Lamine num dia sem brilho. Ou talvez a sorte de ter um juiz safado que liberou a pancadaria. Também o Dani apanhou muito. E o Nico e o Pedri e o Ferran. Confesso que fui também um pouco espanhola ontem. Tengo también una camiseta roja. Fiquei com raiva dos beques argentinos espancando os meninos talentosos de las masias de la España. E com mais raiva ainda do apitador complacente. Só agora notei que eles, os argentinos e os apitadores, fizeram isso a copa toda.
Ainda assim passou longe. Léguas de distância. A Argentina parecia o Paraguai. Ou nem isso. O Paraguai pelo menos entra em campo soltando berros em guarani. A Argentina hablava a língua herdada dos adversários, um espanhol vulgar que Paredes revelou no fim da peleja. Paredes é o retrato da Argentina nessa final: a covardia da retranca, a pilantragem violenta, a vergonha depois do apito final. A mis ojos (rojos), Paredes é o oposto do Messi.
Foi por causa dele que fiquei louca. Dele, Messi. Foi condenado à solidão pela estratégia atarracada do Scaloni. Preso nos espaços obscuros del césped. Esquecido atrás da cortina vermelha. Sob o sol exagerado de nueva jork, Messi se apagou. Foi apagado. Mais que tudo, essa fue la causa de mi dolor: Messi sumiu. Quando apareceu, quando a gente pôde enfim ver o gênio sob a luz que merece, ele não conteve as lágrimas. Yo tampoco.
Fiquei louca.
Perdida.
Desolada.
Até fechar a porta do armário e sair do quarto e sentir o ar da rua, alguma rua vazia desse país enorme chamado Brasil. Ali eu vi: tem uma grande história naquilo que então chamei de meu passado. Messi me deu esse presente. E saí andando aliviada na direção dum futuro qualquer.

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