Arte

Arrozais Amarelos

Arrozais Amarelos
Arte de Renata Buzzarello

Foi naquela estrada de São João. Passando as igrejinhas que se encaram, cada uma em seu pequeno morro. Logo após a entrada pra Luís de tal. Ali, em cada lado da estrada, há uma bela casa. Ambas impecáveis. Casas que dizem exatamente o que são: castelos, donas da paisagem que as rodeiam, culpadas da placidez submissa dos arrozais a seus pés. 

Foi num fim de tarde. As casas estavam fechadas, quietas. A paisagem desfrutava a mais terna solidão. Uma brisa fazia carícias na pele plana da plantação. Um arrepio parecia excitar os arrozais que explodiam de viço. Foi então que o sol tingiu de amarelo o auge de sua única primavera. 

Imagino que as casas se conversem. Talvez sejam irmãs ou cunhadas. É quase certo que alimentam uma disputa implícita: a de ser a mais bela, a mais poderosa, a senhora dos melhores arrozais. Difícil saber a vencedora. Ambas impecáveis. Bonitas, equipadas, perfeitas pra exercerem seu papel. Rigorosamente perfeitas. Os arrozais, atônitos com sua majestade, curvam-se diante delas com uma solenidade muda. 

Não se trata só das casas, bem claro. Além dos castelos, os feudos. Há os ranchos com tratores e estoques. Os gramados e suas geometrias exatas. Os palmitais que sorriem ao cortejo da brisa. E sobretudo os morros verdes onde habitam deusas de água pura. As casas, exibindo-se à beira da estrada, parecem dizer: “vejam meu pequeno reino!”

Mas foram os arrozais que me fizeram chorar. Sob a luz de um crepúsculo raro, no auge de uma existência fadada a cair sob os golpes da colheitadeira, sua beleza rasa e escrava e desesperançosa me tocou. Ébrios da ilusão amarela, eles talvez sorrissem. Em vão. 

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