CHÁ DE MARCELA

Que país é os States! Desci do avião e já vi de longe o brilho do distintivo do policial. Ele nem me olhou na cara. Carimbou meu passaporte e me escorraçou. Foi quase um batismo. Saí do guichê como se já fosse americano. Sabe aquela vontade de cumprir a lei? Então, eu tive. Torci pra encontrar um imigrante ilegal, só pra eu poder chamar o ICE. Que sensação de ordem! Que segurança!
O taxista equatoriano disse que adora o Pr. Trump. Quem não? O homem é um xerife armado até os dentes prendendo os bandidos da América Latina. Foi o que disse o taxista. Eu concordei aplaudindo. Aí lembrei que esse equatoriano podia ser um imigrante ilegal. Parei com os aplausos. Houve silêncio até uma sirene berrar na quinta avenida. Uma viatura passou arregaçando o trânsito. Que país é os States!
Nem bem entrei no hotel e já saímos, eu e Nelson Villas. Tínhamos que fazer uns registros de NY, disse a Enza. Mas eu queria mesmo um chope. Tomei uma dúzia no primeiro pub e saí pela sexta avenida apreciando o pôr do sol. Com aquela paz de país civilizado. Com aquele barulho de sirene de polícia. Com aquele perfume de ordem no ar.
Perfume mesmo. Doce. Leve. Floral. Igual ao de chá de marcela. Por toda parte. Na rua, na praça, no central park. Passei horas procurando as moitas da flor. Não achei uma. Mas o cheiro era constante. E era ótimo. Na Trump Tower encontramos a galera. Já tava todo mundo embalado. O sol se pôs num céu rosado. As sirenes eram quase música. No ar fino do primeiro mundo reinava o perfume de marcela.
– É maconha, alemão!
Quando a Zezeh me disse isso a ficha caiu. Então nos States tem um monte de maconheiro? Por que a polícia não prende? Por que o Pr. Trump não manda eles pra El Salvador? Aquilo me angustiou. Voltei pro hotel. Saí do quarto no outro dia, só pra ir pro jogo. Na volta do estádio paramos na Times Square. Tinha um mar de gente do Brasil, de Marrocos, dos Knicks. Um som de tambor e de JBL. Uma nuvem espessa no ar. Do meio da nuvem vi o Pr. Trump num telão. O topete tinha o tamanho do salão do Zindars e balançava como uma grande bandeira laranja. O brilho dos olhos era dum xerife armado até os dentes. O sorriso era enorme. O meu também.
Zezeh tinha razão, aquilo não era de chá de marcela.

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