É ELE

Não gosto dele. Não gosto da vibe nem do ego. Não gosto do tipinho. Aquele risinho sempre bobo. Aquele arzinho sempre besta. Aquele iate sempre cheio de parça e diva e game. Não gosto dos rolês do pai dele fazendo negócio com a imagem dele. Nem dos negócios dele com os jaíres da vida. Não gosto da sombra esquisita desses caras que ele carrega na nuvem negra. Não gosto dessa nuvem que ele traz sobre a cabeça cheia de pensamento vazio. Detesto esse vazio. Ele podia ter algo. Uma causa. Um sentido. Uma meta que a gente ajudasse a alcançar. Ele podia ser melhor simplesmente por alcançar a meta. Simplesmente por buscar. A gente então seria melhor. A gente cresceu com ele. A gente fracassa com ele. Ele podia ser melhor. Ele devia.
Ele deve. Isso que quero dizer. Ele deve. Nos deve. É de dívida que tô falando, gente. Por isso discordo de todos que não querem ele na seleção. Ele tem que ir. Tem que jogar. Tem que dar a cara. Não porque merece. Não porque tá jogando bem. Não porque acho que ele é capaz disso. Não acho. Acho que vai jogar mal. Que vai parecer um coroa correndo de sunga na praia. Acho que vai ser um papelão. Uma vergonha. Mas quero que ele passe essa vergonha. Quero que ele pague a dívida.
Porque é dívida, gente. Dívida. Essa seleção é liderada pela geração dele. A nossa. Essa pobre geração que não teve um melhordomundo pra chamar de seu. Quando a gente abriu os olhos já não era o auge do Ronaldo. A gente não viu nem Romário nem Zico. A gente nem sonha o que foi o Pelé. Então ele apareceu no Santos e brilhou no Barça e pareceu o próximo Messi. A gente se encantou. Viu nele a aura do craque. E então a gente creu. E créu, não resisto ao trocadilho, créu. Porque a gente se danou. Porque a gente foi enganada. Porque ele não foi o que era a nossa crença. Longe disso. Por isso a dívida. Dívida, gente, dívida. Ele nos deve. Ele tem que jogar. Camisa dez e capitão. Carregar nas costas todo o peso do próprio fracasso. Ele não é o tal “craque geracional”? Então que preste contas a essa triste geração. E pague a dívida. É ele, gente. Ele.
E então é ele quem vai levar a culpa. Cada maldita gota da culpa pela nossa derrota. A derrota que vai ter a cara boba e besta dele. Aí a gente vai fazer um pacto: ele é o culpado do fracasso dessa geração. Da nossa.
Ou não. Atenção, gente. Ou não. Porque essa seleção é braba. O Vini é furioso. O Endrick é craque. E mais que tudo porque a gente sabe que isso aqui é Brasil. A gente não viu aparecer nenhuma das cinco estrelas. Mas nasceu com o peito estrelado. Ele também. E ele é craque demais. E um verdadeiro craque sempre dá um jeito de entrar pra história. A gente tem muitas razões pra acreditar que ele não vai conseguir. Mas tem uns bons motivos pra acreditar que pode. A gente nasceu ontem mas já sabe. A gente pode.

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