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Opinião

GRACIAS, ROJA

GRACIAS, ROJA

Coube a mim neste texto final (repararam que estamos nesta semama escrevendo ‘textos finais’?) dizer o que foi a copa. De fato, tenho uma tese. Portanto, tenho uma premissa e uma hipótese. Premissa: Trump era a autoridade máxima da copa. Hipótese: a copa pretendia consolidar seu projeto de poder. A tese, já dizia o velho Popper, parte daquela pra verificar esta última. Vejamos se consegue.

É claro que Trump, nesta tese, não é um homem. É um rótulo. Um personagem. Um títere controlado por forças obscuras e mais altas – que vemos, daqui de baixo, como nuvens negras da tormenta. A FIFA inteira, do Infatino ao porteiro do prédio em Genebra, está nas mãos dos ianques. Os episódios “políticos” da copa – o veto ao juiz somali, o tratamento dado às seleções “periféricas”, a interferência explícita – não tem precedentes. Minha premissa dispensa mais demonstrações.

A hipótese é o problema. O que afinal Trump queria com isso? Capitão Ulisses (também ele escreverá aqui um ‘texto final’? Tomara que não) trouxe um dado básico: a copa é uma pancada semiológica. A mensagem que passa, as versões que consolida, a narrativa histórica que consagra – tudo isso nos atinge como um tapa na cara. As verdades que impõe (lembrem-se de Nietzsche: uma verdade é uma imposição de uma dada estrutura de poder) têm a densidade dum buraco negro. Logo, o controle dessa narrativa tem um valor estratégico evidente. A Argentina campeã se alçaria a um altar azul no centro da geopolítica mundial. Um Messi coroado rei enxotaria do trono um Pelé de raça negra, a mesma raça abertamente atacada por homens encapuzados que desfilaram diante de Trump no quatro de julho.

Então a hipótese foi verificada? De fato, o projeto faz sentido. Mas não, não foi: porque no fundo ainda sobrevive o futebol. Não importa o que façam do Messi: sua arte não pode ser enquadrada num dado esquema de poder. Não importa o que façam da Argentina: o povo nas calles soltava um grito que fez tremer os joelhos gordos de Milei. Não importa o que tenham feito as forças ocultas: os espanhóis subiram ao campo, jogaram o jogo e tomaram eles mesmos as rédeas da história. O futebol e a história seguem livres – todavía. Gracias, Roja!

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