MESSI, CLÁUDIO

Um tiozinho dia desses me perguntou por que eu usava a camisa do Messi. Não respondi. Ele insistiu. Meio debochado, meio curioso. Achando ridículo mas interessante. Não respondi. Agi como se não soubesse a resposta. Ele foi mais específico. Perguntou se eu usaria a camisa mesmo durante a copa.
“Cláudio”, respondi.
Ele franziu a testa. Olhou prum lado e pro outro. Tendeu nada. Esses tiozinhos não alcançam a gente. Poha, a gente não curte esse amarelo bovino & essa firula neymarzenta & esse batuque com apito e reco-reco. Do batuque, dependendo, até a gente gosta. Do Brasil também. A gente nasceu aqui. Cresceu. Virou adulto sem emprego mas com SUS & vacina & carnaval. Ia ser top morar na zoropa, mas a gente vive no Brasil. E não gosta. Quer dizer, gosta. Sei lá. Não disse nada disso pro cara. Mas ele adivinhou. Perguntou se eu torceria pra Argentina num jogo contra o Brasil.
“Cláudio”.
A gente não fala claro. Fala cláudio. É uma interjeição, cláudio! A gente inventa um jeito de falar. A gente farma aura e tabela cas palavras e dá dribles na bosta da IA. A gente não quer só comida. A gente quer bebida & diversão & arte. A gente gosta do Messi. E a Copa tem essa função: fazer o Messi o melhor da história.
A razão disso, sei não. Acho que é o tempo. A obsessão pelo nosso tempo. A gente quer fazer história. Fazer a história. A gente quer a nossa geração ganhando a copa do mundo do tempo: vencendo nas quartas a geração de Sócrates & Confúcio, na semi a de Espinosa & Zumbi, na final a de Pedro, Paulo, João & Madalena. A gente quer um tempo que seja o melhor de todos os tempos. Daí a pira no Messi. O craque do nosso tempo tem que ser o melhor de todos.
Tem o Pelé, cláudio. Sujeito axial. Rasgo na tela do tempo. Reconfigurador dos valores do mundo. Pedra pesada sobre o sepulcro da nazitragédia, ai meu pai, que contudo revive agora. Com IA, com supremo e com tudo. Será que o nosso tempo é a porta do inferno? Será a nossa geração a pior de todos os tempos? Será o Messi mais uma das nossas fraudes?
Sei não. A gente tá perdida entre tantas questões. Questões antigas que zuniram em orelhas passadas. A gente precisa de questões novas. Questões nossas. Questões finais.
“E hoje, ganha o Salah?”
Outro tiozinho me perguntou agora. E apontou no peito a bandeira da Palestina.
“Messi, cláudio.”
Respondi convicta engolindo as dúvidas.

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