O SEGREGO DA COPA

Antecipei aqui na Abertura que Messi ganharia a copa do Catar. Exatos 18 dias antes da final, dei o spoiler da novela. Não porque entendo de futebol, mas porque sou iniciado nos segredos da geopolítica. Quatro anos depois, o que era secreto está explícito. O esquema veio à tona. Mas ainda há muita confusão entre as massas que assistem à “tragiepopeia”. Sinto-me no dever de esclarecer o que está acontecendo. Nós, os conservadores, enfim venceremos.
Esta época é marcada pela perda da ilusão democrática. Desmascaramos a historinha popperiana de que a humanidade controla o próprio destino. Quem o controla são as altas instâncias às costas dos llíderes (ou títeres) notórios. Jamais houve tamanha concentração de poder. A tecnologia – em especial a IA – provê meios cada vez mais insidiosos de controle. Uns poucos barões controlam tudo, inclusive o oceano em volta da ilha que chamamos liberdade. O irmão Peter Thiel já deixou claro: a democracia acabou.
A guinada totalitária se baseia no racismo. Não é possível justificar tamanha concentração de poder sem recorrer a discursos supremacistas: um autocrata precisa convencer de que é superior – ou de que age em nome de grupos superiores. O racismo – e sua irmã, a xenofobia – são os pilares do fascismo. É claro que todo racista é idiota e pervertido. Mas nós, os reais conservadores, não somos racistas: apenas reconhecemos o valor geopolítico da idiotice e da perversão – e divulgamos vedetes que bebem copos de leite diante de vossas caras.
Falando em vedetes, a copa é o palco ideal para encenar falsas verdades. O futebol é um inigualável catalizador de narrativas históricas. Metade da humanidade é afetada de algum modo pelo esporte. São quatro bilhões de pessoas que sabem quem são Messi ou Ronaldo. Nada pode impactá-las tão prontamente quanto um fato futebolístico. As grandes instituições humanas – a ciência, a política, a religião – produzem fatos complexos assimilados lenta e erraticamente. O futebol produz verdades simples e ululantes. O apito final risca no chão da história um traço nítido. O gesto de erguer a taça tem um efeito sísmico.
No tsunami da copa, a Argentina é a onda que nos convém. A nós, conservadores. A única das grandes seleções em que nunca jogou um negro. A única das grandes torcidas que se permite cantos e gestos ostensivamente racistas. A única nação capaz de forjar um Pelé branco, que por isso – principalmente por isso – é tido por muitos como maior que o próprio Pelé. Se o futebol é a grande arma semiológica, o rei negro apontou essa arma pra cara dos racistas. Se Messi é consagrado o melhor da história, a arma se desarma: a narrativa supremacista estará livre para contragolpear. Milei dará pulinhos de felicidade. Trump dará tapinhas carinhosos em sua bunda. Netanyahu virá por trás empurrando o trenzinho. Nós, os verdadeiros conservadores, veremos o espetáculo com certa repulsa. Mas teremos vencido. Isso é o que importa.
Então esse é o segredo da copa? A Argentina será campeã pra consolidar o projeto tecnocrata das instâncias mais altas e obscuras do ocidente? Messi será de fato coroado o “goat”? Sinceramente não sei. Não entendo nada de futebol, mas não posso deixar de notar que não é fácil bancar esse time. Empatar com Cabo Verde não é exatamente um sinal de excelência. Precisar da ajuda do juiz pra passar pelo Egito, também não. Messi tem feitos muitos gols, mas se mexe no campo tanto quanto minha sogra no carvanal do Bela Vista. Quem entende de futebol me garante que eles são fortes, apesar disso tudo. Se é assim, são favoritos. O trenzinho então vai andar, piuí, piuí.
Em todo caso, o segredo da copa é o segredo desta época. Feliz e auspiciosa época em que os conservadores enfim assumiremos abertamente nosso poder. Uns poucos de nós, no alto da maquinaria que controla as massas, decidirão nosso destino sem fingirem que respeitam ritos democráticos. Nosso irmão Peter Thiel já constrói – não apenas simbolicamente – seu palácio nalguma planície argentina. Quanto às massas, conservarão a liberdade essencial de se submeterem à grande rede, que acolherá cada um de nós num micromundinho exclusivo e caloroso como o “feed” do instagram. A vitória conservadora não tarda. A taça do mundo é nossa.


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