TEMO

Temo que a Inglaterra ganhe hoje.
Temo que ingleses lancem aos argentinos cantos coloniais.
Temo que a Argentina esteja irreconhecível em seu primeiro verdadeiro desafio.
Temo que essa derrota pareça reveladora e que eles digam que era tudo mentira, tudo: la ilusion, la pelea, la sangre.
Temo que essa revelação soe impactante demais.
Evidente demais.
Histórica.
Temo que a história fixe hoje um Messi feio, sujo, contaminado.
Temo que o sistema, ao sugar o sangue do gênio, tenha sido um parasita faminto demais.
Virulento demais.
Hansênico.
Temo restarem manchas azuis na cara do Messi.
Temo ver a cara do Messi depois do jogo, seja o jogo o que for.
Temo aliás que a Argentina ganhe o jogo.
Temo que então se revele toda a doença, toda, e que se rasgue o couro da cloaca da galinha dos ovos de ouro, como disse zezeh, e que a gente jante a pobre ave esquartejada.
Temo acordar na rua entre o lixo do banquete.
Entre os escombros da copa.
Entre os pedaços de mim.
Temo reconhecer minha própria fraude.
Temo ver nos cacos do espelho que também sou doente e que muitos somos e que o mal se espalha.
Temo o ar sufocante do mundo que me restar.

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