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Opinião

TRAVESSIA

TRAVESSIA

Há momentos em que a vida nos propõe questões fundamentais. Daquelas que transcendem o espaço-tempo e atravessam a existência. Quem sou eu? Como sei o que sei? Por que o Ancelotti não põe o Endrick? São questões irrespondíveis. E entretanto, como uma necessidade espiritual imorredoura, elas nos exigem sempre mais a resposta. Se me permitem, segue a minha. 

Não há um só brasileiro que não saiba: Endrick tem que jogar. Disse e repito: nem um só. Eis o que define ser brasileiro hoje: saber que o Endrick tem que jogar nessa maldita copa. Você dirá que não é verdade e que, se esse é o critério, todo mundo é brasileiro: até o Trump sabe disso. Mas você estará errado. A evidência dessa verdade nos alcança – a nós, brasileiros- de um modo peculiar. É uma sabedoria atávica. Um desses instintos tropicais de que fala o Gilberto Freire. Uma certeza que brota no terreiro de nosso ser ao som de pandeiro e tamborim. 

Há dias a torcida brasileira fez a travessia da ponte entre Manhattan e Brooklin. Estive lá e vi: foi um evento quase sapucaiano. Saí questionando um por um: e o Endrick? Ninguém, nem um só crente dessa procissão profana, respondeu senão isto: ele tem que entrar no time. A travessia teve em mim algo de epifânico pois enfim descobri o que é o Brasil. Eis o que somos: um povo capaz de estabelecer uma distinção ontológica entre um craque e o Igor Tiago. 

Sim, um craque: necessitamos de um tanto quanto de luz ou de ar. Mais até do que necessitamos de futebol. Não sei se de fato o Endrick é craque. Talvez não seja, ou ainda não. Talvez Ancelotti esteja certo: há que preservá-lo da fúria que fatalmente verteremos ao descobrirmos que ele não é o Pelé. Mas precisamos acreditar na hipótese de que temos um ponta-de-lança que vai decidir a copa num gol épico e redentor. Esperamos por um herói capoeira e catártico como o Zumbi do Jorge Ben. Queremos que a seleção, o ‘locus’ do craque, seja uma travessia à outra margem da existência. 

O Ancelotti não sabe disso. Sinto uma enorme vontade de simplesmente chamá-lo de burro. Mas admito que ele não pode saber: isso não é algo que se aprenda com as ferramentas pesadas da razão. Ele talvez devesse apenas aceitar, mesmo sem compreender, a nossa ancestral sabedoria – e então se juntar à travessia embriagado pelo rito dos tambores. 

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