Opinião

A arte espetacular que colore a dança

A arte espetacular que colore a dança

Publicado pela primeira vez em 7 de abril de 1845, ‘Os Sapatinhos Vermelhos’ é o conto de fadas mais famoso do poeta e autor dinamarquês Hans Christian Andersen. Trata-se da história de uma garota camponesa que deseja um par de sapatos vermelhos a qualquer custo. E consegue. Porém, ao calçá-los, os sapatos, diferentemente da sua dona, não querem parar de dançar, levando a garota ao cansaço extremo, logo, à morte. Simbolicamente refletindo a cobiça e ambição em sustentar a vaidade e luxúria humana.

Tendo como base o supracitado conto, o excelente filme OS SAPATINHOS VERMELHOS (1948), de Emeric Pressburger e Michael Powell, trabalha a magnitude da arte em várias vertentes e abstrações. Além de requintado, mexe com a intersetorialidade cultural ao juntar, numa obra só, o cinema, a literatura, o teatro, a música e a dança. Ou seja, pra quem aprecia a discussão artística é um manjar delicioso e delirante.

Fazendo o bom uso do technicolor (pois à época as gravações ainda eram em preto e branco), os diretores ingleses produzem um longa que passeia na magia das grandes produções hollywoodianas e na solidez da cinematografia europeia para entregarem um lindo e trágico musical, daqueles que deixam o queixo caído e a alma leve por horas. E sem o moralismo cristão proposto na fábula dinamarquesa. Assim, a trama se desenvolve sobre uma aspirante a bailarina que precisa, num determinado momento, escolher entre a fama e o amor.

Pode-se citar algumas narrativas quebradas como fator desconfortável ao espectador, mas todos os arcos dramáticos são muito bem trabalhados, que vai desde a rigidez talentosa da dança russa ao cenário paradisíaco e glamoroso da estância monegasca de Monte Carlo, além do embate entre o sonho e a realidade fabulado pela edição. Ademais, a cena inicial do balé ‘The Red Shoes’ é algo próximo da perfeição.

Enfim, um filme fantástico que não se configura como um musical autêntico nem como um drama de suspense, até porque não há personagens dúbios na trama. Todos ali são o que são e, a partir disso, desenvolvem-se no pessimismo que a vida propicia. Infelizmente é uma obra subestimada e pouco conhecida do grande público (mesmo entre os cinéfilos), porém, grandiosa e seminal, sendo um pouco responsável pelo que a sétima arte é atualmente. Nota 8,5.

Comentários:

Ao enviar esse comentário você concorda com nossa Política de Privacidade.