Opinião

A fortaleza que se chama família

A fortaleza que se chama família

No mês da família, nada mais conveniente que assistir a filmes que colocam essa instituição num primeiro e irretocável lugar. Mais bonito ainda quando o personagem principal perde a mãe no parto, sendo criado pelo pai e padrinho. Para completar a história açucarada, seu destino é controlar, um dia, os negócios da família. Só que há alguns outros detalhes nessa história toda, principalmente o fato de se tratar da máfia italiana no atraente A HONRA DO PODEROSO PRIZZI (1985), de John Huston. Humor, amor e sangue se embaralham para contar uma triste mas verdadeira história.

Charley Partanna (o monstruoso Jack Nicholson) é o responsável pela “segurança” dos negócios da família Prizzi, cujo patriarca é o verdugo Don Corrado (William Hickey em atuação maravilhosa). Pra continuar nos Prizzi, Charley é reservado para casar com Maerose (Anjelica Huston), neta do chefe. Porém, Partanna se apaixona e casa com Irene Walker (Kathleen Turner), uma assassina de aluguel de origem polaca. Ou seja, desonrando a memória do poderoso Don Corrado Prizzi. Então as confusões se tornam gigantescas e as consequências são frutos de tal escolha. Soma-se a isso o fato de, num passado distante, Charley ter jurado fidelidade absoluta à famiglia.

Há muitas camadas a serem desnudadas nesta fita. Mas é preciso destapar os olhos para algumas idiossincrasias da máfia italiana. Uma delas, e já devidamente citada e creditada, é a instituição família no topo das prioridades. Só que família, neste contexto, quase nunca significa parentesco, mas poder, controle e, logicamente, dinheiro. E tal história se encaminha numa narrativa labiríntica que diverte numa comédia sombria e bizarra, onde o espectador vê traição e cinismo em todas as cenas, inclusive nas repletas de amor. Um singelo soco irônico nos melodramas de crime.

Mas há falhas, obviamente. Alguns diálogos são pobres e algumas situações se desenrolam fácil demais, como o final apressado e descarregado da tensão emotiva que merecia. Uma rigidez de câmera desnecessária. Contudo, é um filme alegre, intricado e que entrega um gosto ruim aos puristas. A estes sugere-se passar longe, caso tome a obra como “lição de vida”. Até porque, na vida real, algumas famílias também não se aguentam quando o assunto é dinheiro. Nota 7,5.

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