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Cecília Cortez: O caminho depois do portão.

Cecília Cortez: O caminho depois do portão.
Arte: Joana Luna

Todo dia a mesma coisa. Eu paro o carro em frente ao portão. Aperto o controle remoto e ele se abre lentamente. Anita aparece e me late ansiosa. Acompanha o carro que anda uns dez metros até estacionar na garagem. E vem sobre mim cheia de alegria. Cuido pra que ela não me suje. Mas nem sempre: às vezes dou um abraço apertado e me encho de seus pelos sem remorso.

Às vezes estou distante nessa hora. Longe em mim. Anita me espreita e me beija e me suja. Mas não adianta. Meus pensamentos me consomem. Sem olhar pra ela eu só digo: sai! E entro em casa e me perco em distâncias ainda mais maiores. Ainda mais fundas.

Não importa. Anita não se importa. Quando enfim reapareço ela é sempre a mesma. Sempre cheia de alegria. Sempre me espreitando e me beijando. Dona de um amor sempre pleno. Imperturbável. Um amor que se comunica. Ela me olha e me acaricia e parece me sorrir. E assim me convence a passear pelo jardim. É a nossa união mais densa. Nós duas dando voltas e desvendando nosso espaço. Eu olhando as orquídeas e as primaveras. Ela um pouco frente farejando os rastros de cada ser que tenha feito por ali algum caminho. No pátio da nossa casa Anita conhece todos os caminhos. Eu conheço tão poucos!

Penso agora num desses caminhos. Num que faço sempre de carro, do portão à garagem. Não serão dez metros. Não durará dez segundos. Um caminho simples. Curto e reto. Irrisório se comparado aos outros que percorro nas ruas e nas calçadas e nas escadas e nos corredores e nos labirintos em mim. São tantos! Tão distantes! Tão cruéis ao exigirem tanto esforço. Mas agora penso: aquele caminho que sempre faço de carro, do portão à garagem, curto e reto e simples, é o que merece minha maior atenção. A ele eu deveria dedicar mais cuidado. Dele, do bom curso que eu faça nele, dele mais que de qualquer outro depende minha vida.

Eu me perdi em caminhos abstratos acelerando entre memórias e desejos e medos e intuições. Eu me perdi nos corredores escuros das arquiteturas que criei. Eu me perdi em pensamentos que nunca me levam a lugar algum. E depois deles, depois desses longos caminhos em que me atrevo, estou sempre ali: na cama, no sofá, na cadeira em frente ao teclado – imóvel e exausta. E sobretudo atônita.

Atônita, hoje, parei o carro. Atônita apertei o controle remoto. Completamente atônita acelerei pelo caminho depois do portão. Dez metros ou menos. Cinco, seis segundos. Simples e curto e reto. E então ouvi um grito pavoroso. O último de Anita.

Não consegui me aproximar. Vi de relance o corpo e a poça de sangue. Só pude fugir. Abri a porta com as mãos trêmulas e entrei em casa e mergulhei em poças ainda mais maiores. Ainda mais fundas.

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