Opinião

Danilo Otoni: Era uma vez na Anatólia

Danilo Otoni: Era uma vez na Anatólia

Anatólia, também conhecida como Ásia Menor, é a península turca que compreende basicamente dois terços deste país. Banhada pelos mares Negro (ao norte), Egeu (a oeste) e Mediterrâneo (ao sul), funciona como uma ponte entre os continentes asiático e europeu, sendo um grande e semiárido planalto central. E é nesta geografia fantástica e bela que o bom filme ERA UMA VEZ NA ANATÓLIA (2011), de Nuri Bilge Ceylan, desenvolve-se na telona (às vezes, num ritmo lento demais).

Pra se conectar efusivamente à obra, é preciso entender o que se passava na Turquia de 2011. Um país que desejava entrar na modernidade da União Europeia mas que mantinha resquícios de misticismo em suas fábulas orais perpassadas de gerações em gerações. Ou, como numa determinada cena, a utilização da lamparina como fonte de luz em meio à ventania que interrompeu a energia elétrica. Dito isso, o longa se dá na busca de um corpo enterrado nos estepes anatolianos.

O que menos importa, aqui, é achar o corpo, porque a procura vai se revelando mais importante nas camadas identitárias dos personagens, que são descascados e apresentados ao espectador como pessoas comuns em suas crises banais profundas. Um médico sensível, um promotor machucado, um chefe de polícia turrão, policiais que só querem cumprir horários e um assassino com mais dor que o próprio morto formam, essencialmente, a composição humana cheia de intensidades e vazios. A trama é incompleta porque trabalha mais nas lacunas que no preenchimento, formulando, assim, uma história à conta-gotas que não dá respostas, apenas pistas. E não deixa de ser um estudo sobre violência máscula, além de simbolizar as mulheres à mudez dos enquadramentos.

Enfim, uma fita pessimista sem compromisso com a grandeza, mas que entrega uma interessante análise meditativa de um país em transformação. Surpreendente e instigante mas, que ainda assim, requer paciência para ser bem degustada. E bom gosto do espectador.

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