Opinião

Danilo Otoni – Gozu: Bagunça disciplinada do horror

Danilo Otoni – Gozu: Bagunça disciplinada do horror

Não entendo como existem pessoas que não gostam de filmes de terror. Há muita coisa a ser descoberta sem precisar rebaixar à deep web. E o ‘J Horror’ é prova disso. Assim como este típico exemplar chamado GOZU (2003), do excêntrico Takashi Miike (mesmo diretor de ‘Morrer Ou Viver’ e o aclamado ‘O Teste Decisivo’).

Para um melhor entendimento, é importante salientar que Gozu (ou Cabeça de Vaca) é uma lenda urbana japonesa sobre a impossibilidade de recontar uma determinada história, pois todos que a ouvem morrem, sendo apenas deixados pedaços e restos de tal história pelo caminho. Assim, Miike pegou o conto popular de Gion Matsuri, com alusão a Gozu sobre a ótica de uma família pobre e caridosa que recebe boa sorte ao hospedar uma pessoa em sua pousada, e transformou neste estranho filme. Sim, faz pouco sentido no papel, mas, como longa, a forma se desenvolve ricamente de maneira bizarra e familiar.

Uma mistura de terror, comédia, criminal, fantasmas, lendas e história yakuza (termo japonês que equivale à máfia e/ou gângster), há algo de rico e real aqui, o que o torna hilariantemente bizarro e criativamente desequilibrado. Tal como a maneira subliminar que trata das fantasias psicossociais coletivas do Japão do século XXI (estaria Minami (Yûta Sone), cheio de sentimentos e descobertas, em busca da sua própria sexualidade?). Abraça o trash de maneira irritante e prodigiosa mas exaspera a incoerência e hipocrisia de um mundo pós-moderno e altamente tecnológico. Ambíguo, misterioso e perturbador, com certeza bebeu da fonte de David Lynch.

No início da fita, há a frase “tudo o que irei dizer a partir de agora é uma piada”. Ou seja, um convite para assistir a este teatro do absurdo de forma descontraída e esperando o riso. O problema é conseguir adentrar no universo do diretor – dificultado pela precária técnica de filmagem. Mas, uma vez lá dentro, impossível querer sair.

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