Opinião

Carta a um jovem ator

Carta a um jovem ator

Se os olhos são a janela da alma, Milton Nascimento é a lente de contato. Em 1988, Milton já estava consolidado como um dos maiores cantores e compositores da música brasileira. Com dezenove trabalhos na bagagem, clássicos instantâneos, suas músicas ecoavam por todo o mundo. O próximo passo então, foi ir até onde o seu povo estava, uma turnê mundial que durou mais de quatro meses. A última parada foi em Nova Iorque e Milton estava  em um quarto de hotel assistindo a um filme. Sempre sensível aos detalhes e as sutilezas da vida, quem sabe ele até possa ter achado o filme em questão interessante, mas o que lhe atraiu de fato, foram os olhos do protagonista, River Phoenix.

Milton Nascimento dispensa apresentações, mas quem era o jovem ator que encantou, à primeira vista, nossa entidade da MPB?

Primogênito de uma família hippie e nômade, River Jude Button nasceu no Estado de Oregon (EUA), no verão de 1970. A sociedade alternativa que pregava paz e amor batizou e forjou River. Seu nome foi retirado do livro “Siddhartha” de Hermann Hesse e Jude é uma homenagem a canção “Hey Jude” dos Beatles, vale lembrar que naquela época a banda britânica também experimentava seu período de viagens alucinantes (ou alucinógenas) e transcendentais. 

Enquanto por aqui Milton Nascimento lançava seu sétimo álbum de estúdio, “MINAS”, a família Button se mudou para a Venezuela. E foi nas ruas de Caracas que River e sua irmã mais nova, Rain (que ainda exercerá papel fundamental nesta história), começaram na vida artística, com pitadas de exploração infantil, talvez? O fato é que os irmãos que cantavam e tocavam violão em troca de alguns trocados, ficaram conhecidos como “los niños rubios que cantan”, sendo responsáveis inclusive, por boa parte da renda familiar.

Ou seja, a criança River e o consagrado Milton sequer sabiam da existência um do outro, mas suas trajetórias já possuíam traços em comum. Seja a vivência latinoamericana, o trabalho precoce ou os bares em troca de pão, suas jornadas eram pontos predestinados a se ligarem de alguma forma, mais tarde.

O enredo imprevisível da vida de River o levou à Califórnia. Desinibido e calejado de vender sua arte nas ruas, decidiu renovar seu repertório, tornando-se ator. 

Dependendo da aplicação, o termo “button” na língua inglesa significa fundo, abaixo, algo que precisa ascender. Para a carreira de River como ator engrenar, sua família acreditou que o oposto deste conceito seria mais adequado e bem recebido em Hollywood, adotando para todos os membros o sobrenome Phoenix, em clara alusão a mística ave.

Se a adoção do nome artístico foi determinante para a ascensão da carreira de River Phoenix, não se sabe, o fato é que funcionou. Seu primeiro grande sucesso no cinema foi “Conta Comigo” (1986), clássico oitentista sobre amizade em que River interpreta um garoto rebelde. Apesar da pouca idade, sua atuação é impressionante, ele não é o protagonista do longa, no entanto, roubou todos os holofotes para si. A forma madura como se comporta em cena faz com que pareça um ator experiente e rodado, digno de premiações. Seu personagem é complexo, e a conexão com o público é estabelecida em poucas linhas de roteiro.  As falas, por vezes leves, em sua boca ganharam peso e

profundidade. Foi um papel intenso e cativante, que colocou River na prateleira das grandes promessas do cinema norte americano, junto a nomes como Ethan Hawke, Johnny Depp e Brad Pitt, por exemplo.

Voltamos ao hotel em Nova Iorque onde Milton Nascimento estava hospedado. O filme que tinha acabado de assistir era “A Costa do Mosquito”, sucedido por “Conta Comigo”, uma dobradinha magnética que inspirou Milton a compor “River Phoenix: Carta A Um Jovem Ator”. 

Milton teve a impressão de já conhecer Phoenix há muito tempo, uma conexão genuinamente fraterna, como um amigo de infância que o transporta para a saudade e a nostalgia do acolhimento e das lembranças de um passado que aos poucos se torna abstrato. Mas como ideia não é matéria, a lenda precisava conhecer o prodígio.

A tal “carta” percorreu um caminho curioso até chegar nas mãos de Phoenix. Interessado em gravar a canção em homenagem ao ator, Milton Nascimento entrou em contato com Quincy Jones, o maior produtor musical da história (afinal, Milton tinha cacife para tanto), perguntando se, por acaso, Quincy poderia intermediar um encontro. Infelizmente, Quincy não tinha o contato de River, mas tinha o Rain (olha ela aí de novo), a irmã do astro.

Para a surpresa de Milton, os irmãos Button/Phoenix já conheciam seu trabalho, mais que isso, o idolatravam.

Acontece que anos antes, o próprio River Phoenix, hospedado no mesmo hotel em que Milton esteve, ouviu uma música do cantor brasileiro na rádio, e se apaixonou. 

Podemos chamar de acaso, destino, sorte, deuses ou seres da quarta dimensão, há coisas na vida muito difíceis de serem explicadas, como esta.

Fã convertido de Milton Nascimento, agora era a vez de River ir ao encontro de seu ídolo. Em 1990, o ator viajou de carro de Los Angeles a Atlanta, onde Milton faria um show, levando sua mãe e sua namorada consigo. Enfim o encontro, e é claro que os dois ficaram amigos instantaneamente, consolidando algo que já existia, só não podia ser tocado.

Eles se encontraram outras vezes depois disso. Milton convidou seus novos amigos para virem até a ECO-92. Como já mencionado, River e sua família sempre foram ligados a causas ambientais, então vieram de bom grado. Inclusive, Milton os levou até a cidade de Três Pontas em Minas Gerais, onde talvez o astro que acabara de interpretar o jovem Indiana Jones, tivesse um pouco de sossego.

Em 1993, um ano após a passagem pelo Brasil na companhia de Milton Nascimento, River Phoenix morreu, vítima de overdose, aos 23 anos.

 A artesã que tece os fios da vida, deu a um cantor brasileiro e a um ator norte-americano, a oportunidade do encontro de duas almas, ou dois espectros do cosmos que já se conheciam há eras, algo raríssimo. Deu a ambos uma amizade verdadeira. 

Quando perguntado sobre River, Milton Nascimento prefere lembrar do aspecto singular que o fascinou desde o princípio, segundo ele:

“Os olhos de River eram como catalizadores de um sentimento original, qualquer coisa arrebatadora a qual ninguém tinha dado o nome ainda”

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