Arte

Cecília Cortez: A mente inquieta

Cecília Cortez: A mente inquieta

Nesta noite tive insônia. É raro eu ter. Mas quando tenho ela me derruba. Os pensamentos me bagunçam. Os medos se enfileiram como soldados da rainha. O rei, esse rei que é meu ego, se angustia e se esconde. Com ele eu fico, também trêmula. Ali, no esconderijo, me lembrei daquela canção do Walter Franco:

Tudo é uma questão de manter
A mente quieta,
A espinha ereta
E o coração tranqüilo.

Sentei na cama. A espinha ereta. Minha cachorrinha me olhando curiosa. Pensei na mente e no coração. O que é uma? O que é outro? O coração, parece, é metafórico. Walter não fala do órgão pulsante. Fala da alma. Posso ter a alma tranquila. É a meta. Mas antes, parece, tenho que ter a mente quieta.

Aí é o problema. Emudecer a mente me soa como uma contradição em termos. A mente é justamente a fala. O que me fala desde dentro. A inquietude em si. Não posso calá-la. Seria como esquecer de mim. Seria asfixiar o rei que se esconde ao meu lado com medo da tempestade da insônia.

Então respiro. Inspiro e expiro. Longa e calmamente. E de novo. E de novo. A mente me fala coisas simples com a voz que tenho aos domingos. E me convida a andar longe do rei que esqueci. E me sorri memórias brancas com os dentes de meus netos. O quarto escuro silencia. Ajeito as cobertas sobre mim. E só sei que acordei de manhã um pouco depois da hora de sempre.

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