Arte

Pôr do sol

Pôr do sol
Fotografia por WR

Calma, Pessoa
Não corte sua pele ainda jovem
Não esconda sua dor tão dentro
Não aceite destinos imutáveis
Assim, tão escravizado ao outro
Eu sei que a esperança é palavra já gastada demais, usada demais
E as utopias estão emboloradas nos fundos de gavetas úmidas
Pessoa, na verdade eu não sei o que te dizer
Parece como querer revelar um segredo luminoso, que eu não tenho
E não podemos voltar o tempo
Não podemos colocar ou tirar palavras no meio das frases já ditas
Não seremos capazes de cortar cenas já vividas na vida
Não, e não podemos abaixar o volume dos gritos já gritados
Só podemos, Pessoa, criar
Talvez novas frases ou novos volumes
Novas cenas e talvez até novas danças
Quem sabe novos pares nesta dança
Hoje mesmo Pessoa, eu vi um pôr do sol
Lindo, vermelho, laranja, amarelo, forte, espalhado por todo um lado do mundo
Na verdade era só mais um pôr do sol, como tantos que já vi nas décadas de minhas memórias
Te falar disso, justo eu que nunca fui um deslumbrado pelos astros do céu
Mas mesmo com esta repetição insistente, ainda assim, a gente, Pessoa, tem a capacidade, mesmo que ilusória, de fazer o novo, inventar, dizer e fazer de outro jeito
É fantástico a gente ter consciência de que se pode inventar e criar um dia inédito
Foi isso que pensei, que a cada instante, temos um inédito, bem na nossa frente
O tempo todo
Por isso, Pessoa, mesmo eu não tendo suas memórias, seu gosto e seu tempo, te peço, não corte sua pele ainda jovem
Calma, não esconda sua dor tão dentro.

Wagner Rengel

Wagner Rengel quis ser silêncio depois pássaro depois peixe depois vento depois grilo quis ser gente depois nada. Mora em Curitiba.

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