Opinião

Sobre aquilo que resta

Sobre aquilo que resta

Se uma pessoa é uma coleção de hábitos e memórias, quem é este a quem a pessoa acontece?

(Wu Hsin – China – Viveu entre 403 e 221 Antes da Era Comum).

Há alguns meses me deparei com uma pergunta que, apesar de não ser inovadora, merece ser refeita e lembrada: “tirando as suas posses, o que resta?”

Naquele contexto, quem fez essa pergunta não sabia, mas estava usando uma técnica de autoanálise usada por antigos sábios Védicos, chamada “néti néti”.

Néti néti significa em uma tradução grosseira “não isso, nem aquilo” e ainda hoje pode ser usada para demonstrar que, cada um de nós não é o nome que recebeu, nem os papeis familiares que exerce, nem o cargo profissional que ocupa, nem os bens que possui, nem as memórias colecionadas e muito menos o documento de identificação que carrega.

Em um resumo, o que se procura com esse exercício de linguagem negativa, é atingir algum patamar de realidade a partir da eliminação de camadas do irreal; chegar mais próximo do centro da cebola descartando as camadas externas.

E para que?

A ideia é a de gerar o entendimento de que não é necessário passar a vida perseguindo algo a mais para aplacar um sentimento de falta, para tentar preencher um oco existencial. Podemos criar jogos de ganhar dinheiro, conquistar isso ou aquilo como forma de satisfações passageiras (a partir do momento em que já se tem o suficiente para viver bem), porém, essas atividades são apenas distrações e assim devem ser qualificadas.

Afinal, talvez o melhor jeito de perder a vida seja passar todo o tempo tentando salvá-la de uma aparente incompletude.

Digo isso porque a vida é insegura, atemorizante e mutante por natureza. Ela é movimento, é respiração, é digestão, é o rio que corre, o sangue que pulsa nas artérias dos animais e a seiva que circula pelas plantas. Assim sendo, a busca por estabilidade e segurança, embora seja instintiva, gera mais sofrimento.

Falar isso de humano para humano não é tarefa fácil, afinal, somos criados como “seres de sentido”, ou seja, seres que buscam algum sentido para a vida, algum valor externo além dela mesma. Para que haja esperança e futuro, intuímos erroneamente que deva existir algum sentido oculto além do próprio viver.

Então, tal qual o caramujo fora da concha, nos sentimos desabrigados e abandonados ao nos depararmos com uma existência desprovida de proteção divina. Estaríamos, afinal, sujeitos ao acaso, aos fluxos e fúrias da natureza, sem nada que possa nos salvar?

Humanos não gostam de aceitar esse tipo de ideia. Talvez não seja demais dizer que, para o humano, é torturante pensar dessa forma. Isto porque nós aprendemos a nos perceber como como individualidades apartadas da natureza e da própria vida manifesta em outros seres. Humanos se julgam especiais e superiores à própria vida. Humanos desejam eternidade por terem perdido a compreensão do fenômeno da vida. Encaram o fim da individualidade como algo injusto e inaceitável.

Daí o sucesso das religiões teístas, que aglutinam e satisfazem, pelo menos, três desejos humanos: a) dão um sentido para a existência individual; b) prometem salvação eterna; c) vendem proteção em troca de louvor e contribuições.

O Humano integrado a uma religião se sente mais confortável e calmo para funcionar, pois acredita que: a) viverá eternamente como indivíduo; b) sua alma será salva de qualquer modalidade de inferno; c) será protegido incondicionalmente pela divindade de sua cultura.

Não me entenda mal. Reconhecer-se como indivíduo é algo também importante. É através dessa percepção que funcionam os instintos animais que povoam o humano, especialmente o de autopreservação, ou seja, foi por se sentir como indivíduo que o homem primitivo foi atrás de comida, fugiu de predadores, acasalou e se manteve como espécie até os dias atuais.

O problema é que essa forma de autopercepção não deveria anular outra forma coexistente, que é a de elemento integrante da grande vida. Isto é, o homem precisa voltar a se entender como um canal de manifestação da vida, ou seja, de que ele, indivíduo, é um meio de manifestação e não uma finalidade. A vida não está a serviço do homem. Pelo contrário, é o homem que funciona como um dos incontáveis modos de manifestação da vida.

Se nos sobrar um pouco de humildade talvez consigamos reconhecer que não somos donos, sequer, dos nossos próprios pensamentos. Eles brotam involuntariamente a partir dos diferentes tipos de hormônios que irrigam o corpo e, a partir disso, preenchem a mente, por vezes agradando, por vezes incomodando, por vezes sendo repetitivos e desfuncionais.

Mas então como responder à pergunta do que resta após excluirmos as nossas posses? O que somos se não correspondemos nem mesmo aos papeis que interpretamos no palco da vida e às memórias colecionadas?

Não há mapas ou receitas, porém, de minha parte, concluo que a resposta demanda uma mudança de premissa. Não há que se buscar por “alguém” e, por essa razão, não faz sentido investigar “quem somos”. Em vez disso, talvez o caminho seja entender “o que somos”. Concordo, neste ponto, com o meu velho amigo Fritz (Friedrich Nietzsche), o qual sustentava que o sujeito não passa de um hábito gramatical. Para nos entendermos, é preciso sair da órbita do sujeito construído. E a resposta, provavelmente, estará além das palavras, além da linguística Cartesiana que formatou a mente racional responsável por escrever este artigo.

Darwinn Harnack

Darwinn Harnack é advogado e professor.

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