Opinião

Vítor Véblen: A mensagem oficial

Vítor Véblen: A mensagem oficial

Pergunte-se a si mesmo: diante da pandemia, o que me aconselha o Governo Federal? A ficar em casa? A tomar cloroquina? A usar máscara? A tomar vacina? Pergunte-se ainda: as respostas de hoje eram as mesmas há um mês? E há um ano? Seguirão sendo as mesmas? Pergunte-se enfim: qual a mensagem oficial, a nós, ao povo, diante da mais grave pandemia de nossa história?

Não há respostas. Os mais fieis seguidores do Presidente concordarão: não há mensagem oficial. Ou melhor: há muitas – erráticas, efêmeras, contraditórias. Estes fieis seguidores justificarão com o argumento batido: a pandemia trouxe desafios inéditos e profundos, é natural certa vacilação em seu combate – “ninguém sabe a resposta certa”. Aí é que está. É esse, precisamente, o equívoco. Há sempre a resposta certa. Há sempre a possibilidade – aliás, a necessidade – de uma mensagem oficial. E mesmo se houver “correção de rotas”, mesmo se essa mensagem for modificada, há sempre uma razão para isso. Ou melhor: há sempre a razão.

Ninguém pode duvidar de que o Governo Federal, especialmente nas palavras de seu Chefe, tem se contradito. Em tese, não há problema em assumir posições que contradigam posições anteriores: o problema é assumi-las ao mesmo tempo. O problema é não resolver a contradição. O Governo poderia dizer: “no início achamos que a cloroquina fosse eficaz; agora concluímos que não é”. Pronto. Estaria assim resolvida a questão. A contradição desaparece: a mensagem atual afasta a anterior – só aquela permanece válida. O problema é que o Governo não resolve as contradições: ao contrário, ele as alimenta.

Há um certo Capitão Ulisses, também um colunista da Abertura, que sustenta haver uma estratégia a explicar essa postura contraditória. Confesso que não gosto do tal Capitão: considero-o a pior peça de nosso elenco; mas tenho que admitir que essa tese faz certo sentido. Bolsonaro não quer propagar ‘mensagens oficiais’. Não quer assumir um discurso racional, em que contradições devem ser resolvidas. Não quer ser a voz do “sistema”. Bolsonaro quer posar como alguém que porta verdades que não podem ser reveladas, mas que justificam suas falas contrárias ao “politicamente correto”. Bolsonaro quer mostrar que detesta o que seja ‘oficial’: ele age como se estivesse convicto de que a maquinaria estatal é corrupta e precisa ser implodida. Bolsonaro quer deixar implícitas suas convicções íntimas, que contradizem o tal “sistema” a que ele ainda tem que se submeter. Ainda.

Não há mensagem oficial porque Bolsonaro não quer. Assim ele se exime da responsabilidade de assumir posições válidas dentro espectro democrático – posições discursivamente defensáveis e que estão sujeitas a refutações igualmente discursivas. Bolsonaro busca escapar do escrutínio da razão, que reprime contradições. Em termos diretos: ele evita a responsabilidade assumir posições claras diante da pandemia, evitando assim o julgamento da história. A ele, basta agir como o cavaleiro que combate o “sistema”. Basta gritar impropérios que pareçam autênticos. Basta sugerir que conhece verdades inconfessáveis a justificarem quaisquer posturas – especialmente as que pareçam mais excepcionais.

E assim seguimos sem mensagem oficial. Sem sabermos a orientação clara do Governo diante de um dos maiores desafios de nossa história. Perdidos na nuvem negra de um irracionalismo incapaz de nos dar conselhos simples: fique em casa, use máscara, tome vacina. Conselhos que deveriam ter a ênfase e a imposição que só uma mensagem oficial pode ter – e que fariam, portanto, toda a diferença.  

Vítor Véblen

Vítor Véblen é iniciado em literatura política. Viveu em Chicago, onde estudou economia. Mora atualmente em Joinville.

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