Opinião

A maldição e o herói.

A maldição e o herói.

A final da Copa de 1950 é o maior jogo de futebol de todos os tempos. Por várias razões. É o maior público da história: as catracas do Maracanã contavam quase duzentas mil pessoas quando a multidão arrombou os portões. É o maior confronto: jamais se reuniram tantas lendas sobre o gramado – o Brasil tinha alguns dos melhores jogadores de sua história; o Uruguai, alguns de seus deuses. E, sobretudo, é a maior tragédia: a mais pervasiva derrota jamais sofrida.

Mas há ainda uma outra, terrível razão (também por ser terrível esse jogo é tão grande). Uma razão vergonhosa: nunca uma derrota foi tão cruel. Nenhum outro jogador recebeu condenação tão dura. Nem tão repugnante.

O jogador, Barbosa, era o goleiro brasileiro. Foi condenado, alegadamente, porque teria falhado no gol que deu a vitória aos uruguaios. Na verdade não houve falha: Giggia, um dos maiores jogadores de todos os tempos, chutou forte, rasteiro, a poucos metros do gol; Barbosa, que Nelson Rodrigues considerava o maior goleiro de todos os tempos, nada pôde fazer. Além de cruel, a condenação era hipócrita: a verdadeira razão não foi a alegada falha, mas a cor da pele do goleiro. No fundo, era só isto: racismo.

Por isso foi tão repugnante. Barbosa não foi condenado: foi amaldiçoado. Aos olhos de seus algozes, sua negritude era o verdadeiro motivo da nossa derrota. Sua raça, o da nossa “fraqueza”. Ele próprio, Barbosa, era a personificação de nosso “mal”: o sangue mestiço de nosso povo.

Mas o sangue de Barbosa é valioso. Altivo e imperturbável, ele suportou a baixeza de seus algozes – e os superou categoricamente. No dia em que se completam 100 anos de seu nascimento, todos vemos claramente o que ele era de fato: um herói. A maldição está sepulta com os racistas que o condenaram. Barbosa, heroicamente, descansa na eternidade.

Post scriptum: indico efusivamente o documentário “Barbosa – 100 anos de perdão”, da ESPN Brasil. O herói tem ali uma homenagem à sua altura.

Serjão Santana

Serjão Santana jogou futebol amador em Itajaí. Fã dos irmãos Rodrigues, abraçou a crônica esportiva. É marcilista e botafoguense.

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