Arte

Wagner Rengel: Mutações e dancinhas na padaria

Wagner Rengel: Mutações e dancinhas na padaria

E se você vai na padaria comprar três pãezinhos com glifosato, a moça te atende dançando e apontando para as palavras que aparecem no ar. Você digita o pedido e envia no “direct” e na próxima imagem estão os pães no pacote de papel. Você agradece no mesmo “chat” e a moça faz o último gesto apontando para baixo, do centro para os lados, fazendo aparecer: “Obrigada, eu. Tenha um bom dia”. Fim.

E a felicidade é tão etérea que não dá tempo de sentir. A fila anda.

Felicidade é uma palavra que não deveria ser usada aqui. Perdão. Mas, também sou deste tempo e se não cuido, alimento o esvaziamento de algumas palavras, já quase mortas.

Vou tentar de novo: e diante da cena da moça de touca branca, dançando e apontando as palavras, você quase sorri, quase espontâneo, quase sente alguma coisa boa, quase e já passa, já vai, tomado por uma onda maior revirada em outros pensamentos, talvez de pena, talvez de apatia.

Agora não sei mais se escrevo sobre a dancinha, o esvaziamento das palavras, a distopia, os pães, sobre mim, sobre você. 

Um tema antigo me vem, a busca de palavras que definem, quem sou eu, o que eu tenho, o que eu faço e a gente (nem eu, nem você) carece de estabelecer alguma palavra para se dizer, para fazer os gestos certos, para ter os sonhos pertinentes, para colocar na “bio”, para escrever as histórias, fazer o vídeos, as poses para as fotografias, o livros, as compras. 

Alguns possuem isso tão claramente e tão cedo já estão definidos num destino exato, reto e imutável. Outros confundem com profissão, com fazer e se definem ali e tudo gira ao redor daquela palavra.

Não sei você, mas eu tenho grandes dúvidas. Se sou, é sempre temporário, é cheio de esquinas e tão mutável quanto, quanto, não sei. 

Ontem mesmo eu fui a palavra jardineiro, cortei a grama aqui em casa. Antes de ontem eu fui a adorada palavra férias e dormi em plena tarde. Hoje sou a palavra dor, como um derrotado numa luta de boxe, com ela no corpo pela jardinaria de ontem. Amanhã serei arte e farei um desenho e depois serei pai das minhas filhas e elas serão minhas auxiliares na minha pizzaria, que serei cozinheiro e faremos pizza para comer quando a noite chegar. 

E assim vai em tudo em sonhos e devaneios, sem certezas que o jardim ficou médio, tem pizza que sei lá, tem férias que não sei…

Às vezes eu só queria uma palavra, muitas vezes quero várias e agora tento Poeta nesta prosa meio confusa, eu sei.

Eu não queria ser astronauta na infância. Já de muito cedo sabia que lá não havia nada e de vazios eu sou uma peneira e restam em mim cacos e pedras, cristais de açúcar, pedras de chocolate, que sou doceiro de vez em quando. Mesmo não acreditando em bruxas eu sei, elas estão na cozinha.

E a moça está lá na padaria, fazendo dancinha, apontando as palavras, querendo “likes”, que isso parece que lhe dá uma breve sensação de prazer. 

Tenho pra mim que isso é efeito do esvaziamento das palavras. Vida, felicidade, amor, amigo, encontro… A gente chama o frentista de amigo e diz que ama a pessoa que encontrou o celular perdido. As palavras exigem cuidado, elas têm peso e, se bem ditas, até podem curar dores antigas.

Quais outras palavras foram perdendo o seu peso de sentido que eram tão fortes que a gente guardava para dizer só de vez em quando e contava nos dedos às vezes que usava na vida? Quais palavras definem o gentil leitor que chegou até aqui? 

Enfim, que a modéstia não nos engane e a soberba não nos aprisione. 

Ah, felicidade é palavra de usar com prudência, já que só alcança seu sentido pleno se estiver na mesma frase com outras raridades: amor, amigo, sonho, saudade, nascimento…

Vou, que agora sou Despedida.

Wagner Rengel

Wagner Rengel quis ser silêncio depois pássaro depois peixe depois vento depois grilo quis ser gente depois nada. Mora em Curitiba.

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